O blog Conceitos Táticos, como o próprio nome entrega, visa abordar os conceitos táticos no mundo do futebol. Meu objetivo é analisar, provocar, fazer pensar, discutir e tirar dúvidas sobre o assunto. Estou sempre aberto a opiniões, sugestões, críticas, perguntas, discordâncias e etc.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

ESPECIAL FAVORITAS DA COPA: A ALEMANHA

A segunda edição do especial favoritas da copa vai analisar a seleção alemã. Uma equipe fortíssima, tradicional, que conta com bons atletas, a melhor equipe do mundo atualmente e fez boas campanhas nas duas últimas Eurocopas e na última Copa do Mundo, porém sempre padecendo em jogos decisivos.  O elenco, agora rodado, conta também com jovens valores que abrem um bom leque de opções para o treinador Joachim Low.

Alemanha, uma das grandes favoritas ao título da Copa: equipe ofensiva, que mescla jogadores rodados com jovens valores.

Partindo do 4-2-3-1 da moda, Low monta sempre equipes ofensivas, tendo um ataque bastante produtivo. Costuma rodar bastante o elenco (mesmo durante as competições de tiro curto), o que dificulta para determinar quem serão os onze titulares da Copa.

O mais fácil de definir os titulares é no sistema defensivo: Neuer no gol, Lahm na direita, Mertesacker e Boateng no miolo da defesa e a única dúvida fica na lateral esquerda: o favorito é Schmelzer, do Borusia Dortmound, porém Jansen (do Hamburgo) tem sido regularmente escalado nos últimos jogos e corre por fora. Antes que alguém cite Hummels, ele, mesmo quando é relacionado, tem ficado no banco.

Schweinsteiger, recuperado de lesão, tem posição garantida na meia cancha. A dúvida fica por conta de parceiro. Naturalmente seria Khedira, mas vem de um longo período de lesão. Mesmo que se recupere, sua convocação e sua titularidade são uma incógnita. As opções de Low são Gundogan (também lesidado), Kroos e Lahm, que além de estar jogando regularmente de volante no Bayer foi também testado nessa posição nos últimos amistosos da seleção. Bender corre por fora, mas deve ficar mesmo como opção no banco. Com Khedira ou Gundogan, a seleção ganha em marcação, já, como Kroos ou Lahm tem seu passe valorizado. As opções de Low a cada jogo podem ser determinadas também pelas características do adversário.

No campo ofensivo é onde Low mais “brinca” com o elenco que tem. Ozil, Reus, Gotze, Muller, Shurrle e Klose brigam por quatro vagas. Low pode optar por um centroavante fixo (Klose) ou por um mais móvel (Gotze ou Muller). Kross, que pode jogar tanto como volante quanto mais adiantado na armação e o jovem Draxler (do Herta Berlim) correm por fora. Assim como entre os volantes, a escalação do sistema ofensivo deve sofrer variações jogo a jogo, dependendo das condições físicas de cada atleta, características do adversário e situações de jogo.

Uma seleção ofensiva, que valoriza a posse de bola, mas é mais vertical que a seleção espanhola. Tem uma boa rotação do quarteto ofensivo durante o jogo, que conta ainda com o apoio da dupla de volantes. Deve sufocar os adversários em seu campo ataque e procurar jogadas em velocidade com passe qualificado no meio (Schweinsteiger, Kroos e Ozil) e jogadores habilidosos pelos lados (Gotze, Shurrle, Muller, Draxler, Reus...).

Uma das possíveis escalações. Repare nas setas: a Alemanha deve encurralar seus adversários, promovendo grande pressão e atacando em intensidade.


PONTOS FORTES: Elenco qualificado, que agrega jogadores já rodados com jovens de qualidade e um bom leque de opções de diferentes características, que permite ao técnico Joachim Low mudar o panorama das partidas de acordo com suas necessidades.


PONTO FRACO: O excesso de lesões que vem acometendo alguns dos principais atletas durante a temporada. Alguns podem virar desfalques ou chegar o Brasil longe de sua melhor forma.

sábado, 15 de março de 2014

Especial Favoritos da Copa: Espanha

Abro aqui minha série de análises das seleções favoritas á Copa do Mundo falando sobre a atual campeã: a Espanha.  Uma equipe talvez um pouco envelhecida, cujos astros já passaram do auge, porém ainda perigosíssima e grande candidata.  Vicente Del Bosque, já há seis anos no comando, não deve trazer grandes novidades, mantendo o time campeão do Mundo e bicampeão da Eurocopa.

A base do time continua a mesma dos últimos seis anos vitoriosos.

Três goleiros experientes (Casillas, Valdés e Reina), sendo que Casillas deve ser o titular, mesmo não tendo vaga cativa no Real Madrid. O jovem De Gea, titular do Manchester United, deve esperar até 2018.

A linha defensiva, composta por quatro jogadores, deve contar com Piqué e Sergio Ramos no comando da defesa e Jordi Alba na lateral esquerda.  Na direita, Juanfran, em grande fase no Atlético de Madrid, vem sendo testado nos últimos amistosos (tendo inclusive feito um gol) e pode surgir como novidade, no lugar do fraco Arbeloa.

A dupla de volantes deve ser composta por Busquets e Xabi Alonso. Busquets contribui com o primeiro passe certo e o senso de cobertura e ocupação de espaços, enquanto Alonso “quebra” o ritmo do “Tiki Taka” catalão com inversões e bolas longas.  Com Alonso em declínio físico e Thiago Alcântara em grande fase, o segundo pode surgir como titular, dando mais dinamismo ao meio de campo e deixando a seleção mais parecida com o Barcelona, mais cadenciada, porém perdendo a acelerada que Xabi Alonso proporciona.

No meio de campo, Xavi segue absoluto como cérebro da equipe, comandando as ações ofensivas em parceria com Iniesta, que atua mais pela esquerda, mas procurando bastante o centro do campo. Pela direita, o titular deve ser Pedro, mais atacante, que visa dar maior profundidade á equipe, deixando-a mais agressiva. Pedro atua em diagonal, sempre procurando o gol. David Silva, excelente meia do Manchester City, deve ficar como opção no banco, assim como Cazorla. Escalar um dos dois no lugar de Pedro qualificaria ainda mais a qualidade do passe, porém deixaria a equipe com dificuldades em penetrar a defesa adversária, e Vicente Del Bosque, mesmo aproveitando as características do Barcelona, gosta de equipes mais agressivas. Jesus Navas (ou Koke, que foi pouco testado por Del Bosque mas pode  aparecer na convocação final) fica como opção para buscar a linha de fundo no caso de enfrentar uma defesa muito fechada, ou buscar o contra-ataque em caso de vitória parcial.

Se até o meio de campo a equipe está praticamente definida, a maior dor de cabeça de Del Bosque está no comando do  ataque. Llorente, Soldado, Negredo e Torres já ganharam suas chances, mas nenhum deles inspira total confiança. A última cartada é o brasileiro naturalizado Diego Costa, a antítese do “Tiki Taka” catalão. De estilo rompedor e polêmico, pode ajudar a furar retrancas adversárias. Deve ser titular na Copa, tendo como opção no banco um finalizador (Soldado ou Negredo). Torres, de boa inteligência tática e capaz de ficar na linha dos zagueiros para receber livre sem ficar impedido, deve ser opção para contra-ataque em caso de vitória parcial, quando a equipe adversária se adianta. Alternativa também é Fábregas atuar como falso centroavante, recuando para armar e abrindo espaços para as diagonais de Pedro e Iniesta.

No meio: Busquets como primeiro volante e Alonso com mais liberdade, verticalizando o jogo. Iniesta ora centraliza para armar com Xavi, ora infiltra na área, sempre partindo da esquerda, enquanto Pedro é mais atacante, com infiltrações a partir da direita, buscando a diagonal em direção ao gol.

PONTOS FORTES: equipe pronta, ainda a base campeã da última Copa do Mundo e das duas últimas Eurocopas.


PONTOS FRACOS: principais atletas já em declínio físico e a falta de um camisa 9 realmente confiável.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Seleção do Campeonato Brasileiro 2013

Antes de qualquer coisa, julgo fundamental deixar claro que a seleção não se refere aos melhores do país, ou do ano, e sim da competição, logo, deixei de fora atletas que considero melhores que os que incluí, porém que na minha leitura não fizeram um campeonato tão bom. E, lógico, discordâncias são naturais, desde que providas de respeito.



-Goleiro: Fábio (Cruzeiro): O Brasil tem outros grandes goleiros, como Diego Cavallieri, Jefferson e Vitor (que fez uma excelente Libertadores pelo Atlético-MG), mas no campeonato o destaque fica com Fábio, o goleiro campeão, que tem sua parcela de responsabilidade com grandes defesas e exercendo sua liderança sobre o time.

-Lateral-Direito: Ceará (Cruzeiro): Seria o lateral-base da equipe. Desbancou a concorrência do bom jovem Mayke na equipe pelo papel tático, mas também sabe ajudar na saída de bola e descer ao ataque com bons passes e cruzamentos quando necessário.

-Zagueiro: Gil (Corinthians): Um dos grandes responsáveis pelo “empatite”. Quando o adversário conseguia superar a boa marcação armada pelo Tite, se deparava com Gil como último homem, fazendo cortes precisos.

-Zagueiro: Dedé (Cruzeiro): após um início hesitante, foi firmando-se e relembrando a boa fase dos tempos de Vasco. É o zagueiro com mais desarmes na competição.

-Lateral-esquerdo: Alex Telles (Grêmio):  O jovem lateral (prestes a completar 21 anos) destacou-se no campeonato pela qualidade no apoio, com cruzamentos e fortes chutes de fora da área. Seria o lateral apoiador da equipe.

-Volante: Rodrigo Caio (São Paulo): O símbolo da reestruturação da equipe com a chegada de Muricy Ramalho, pode jogar tanto como volante quanto como zagueiro. Com boa leitura, pode inclusive alternar as funções dentro de uma mesma partida, inclusive recuando para a linha dos zagueiros com o intuito de qualificar a saída de bola.

 -Volante: Elias (Flamengo):  O “motorzinho” da equipe carioca, auxiliando na marcação e ainda sendo o principal responsável pela armação de jogadas. Suas principais partidas e gols mais importantes ocorreram na Copa do Brasil, mas fez também um bom campeonato brasileiro.

-Meia-atacante: Éverton Ribeiro (Cruzeiro): Dito por muitos como o craque do campeonato, caiu como uma luva na equipe celeste, alternando de posição com os outros meias com frequência e protagonizando boas arrancadas, principalmente em diagonal.

-Meia-atacante: Marcelo (Atlético-PR): unindo velocidade, habilidade e grande qualidade técnica, principalmente pela direita do ataque, grande responsável por “desafogar” a equipe, recebendo lançamentos de longa distância e puxando contra-ataques. Sempre motivo de preocupação para defesas adversárias.

-Meia-atacante: Rafael Marques (Botafogo): Outrora criticado, foi, ao lado de Seedorf, um dos grandes responsáveis pela boa campanha botafoguense na competição. Podendo executar diversas funções em campo, foi o “curinga” ofensivo da equipe, sendo fundamental nas ações ofensivas e ainda auxiliando na marcação.

-Centroavante: Walter (Goiás): Fundamental na campanha do Goiás na competição, o “gordinho” é capaz de realizar as diversas funções de um centroavante: finalizar, segurar a bola, servir de parede e ainda abrir espaços para os atacantes que vêm de trás.


-Técnico: Marcelo Oliveira (Cruzeiro): Montou, junto á diretoria, a equipe campeã. Após boas campanhas com o Coritiba (que bateu  na trava duas vezes na Copa do Brasil), dessa vez foi feliz com a conquista do título. Uma equipe leve e dinâmica, que priorizou o ataque, e não dependeu exclusivamente de nenhum jogador. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

As Variações Táticas do Palmeiras na Série B

O Palmeiras vem cumprindo sua obrigação e garantindo seu acesso para o ano do centenário sem grandes sobressaltos, liderando praticamente o campeonato inteiro. Para atingir seus objetivos, Gilson Kleina tem variado o desenho tático da equipe de acordo com desfalques e situações de jogo.

Ele tem se apoiado em basicamente três desenhos táticos, que, no comportamento defensivo, reduzem-se a dois. Ora ele utiliza três volantes, tendo um meia armador e dois atacantes, ora ele utiliza dois volantes, tendo dois meias armadores e dois atacantes ou um meia armador e três atacantes. Importante ressaltar que o comportamento do time não altera devido ao número de volantes escalados, ou seja, não fica mais defensivo ou mais ofensivo, como muita gente gosta de pensar.

O Palmeiras vem garantindo tranquilamente o acesso para a série A no ano do centenário.
Quando utiliza três volantes, Marcio Araujo fica mais preso na frente dos zagueiros, enquanto Wesley e Charles têm mais liberdade para chegar á frente, com arrancadas, infiltrações por dentro, passes e finalizações. Valdívia fica solto para armar o time, Leandro e Alan Kardec jogam por dentro, enquanto os laterais Luis Felipe e Juninho são os responsáveis por dar amplitude e profundidade* ao time.  Em alguns momentos, Wesley (principalmente pela esquerda), Valdívia e Leandro (pelos dois lados), também se aproximam da linha lateral, dando amplitude ao time e fazendo parceria com Juninho e Luis Felipe. Charles joga mas centralizado. Alan Kardec é a referência, mas não se limita a ficar parado dentro da área. Ele recua por dentro, procurando fazer a parede e muitas vezes achar passes em profundidade para os companheiros.

Comportamento ofensivo com 3 volantes: Valdívia solto, Wesley e Charles fazendo infiltrações por dentro e Luis Felipe e Juninho responsáveis pela amplitude e profundidade da equipe.
Defensivamente, os três volantes marcam por dentro, enquanto Leandro e Alan Kardec procuram bloquear a saída de bola pelas laterais. Valdívia fica mais solto na frente. Pressiona o primeiro passe do volante adversário, mas assim que é batido não se preocupa com o retorno, descansando para efetuar as ações ofensivas.

Sem a bola, os volantes marcam por dentro, Leandro e Kardec bloqueiam a saída pelas laterais e Valdívia dá combate no primeiro passe, descansando depois que é batido.
Quando entra com dois volantes, Gilson Kleina coloca Mandieta para armar ao lado de Valdívia ou um terceiro atacante (normalmente Vinícius).  Quando joga Mandieta, ele atua aberto pela direita, mas centralizando para aproveitar os espaços deixados pela marcação, mais preocupada com Valdívia, e armar o time.  Leandro parte da esquerda para a área, fazendo dupla com Kardec, Wesley sobe mais esporadicamente que quando tem Charles ao seu lado, e os laterais seguem sendo a principal fonte de amplitude e profundidade do time.

Com Mandieta em campo: com a bola, ele centraliza para armar no espaço deixado pela marcação, mais preocupada com Valdívia, e Leandro forma dupla com Kardec no ataque. Sem a bola, Mandieta e Leandro bloqueiam a saída pela lateral, enquanto Kardec e Valdívia dão o primeiro combate pelo meio.
Quando usa três atacantes, Valdívia novamente se isola na armação. Pela direita, Leandro procura a diagonal, fazendo dupla com Kardec e abrindo o corredor lateral para Luis Felipe. Pela esquerda, Vinicius procura o fundo, sendo a principal opção de profundidade.  O time descentraliza um pouco suas ações ofensivas, procurando parcerias pelos lados (Leandro-Valdívia-Luis Felipe ou Vinícius-Wesley-Juninho) ou armando o jogo por dentro (Valdívia-Wesley-Kardec).

Os atacantes pelos lados garantem maior amplitude e profundidade sem depender tanto dos laterais, que continuam subindo bastante, dessa vez para formar parcerias com o atacante do seu lado e um dos meias.
Defensivamente, Leandro e Vinícius (ou Mandieta) recompõem pelos lados, e Valdívia e, principalmente, Kardec combatem a saída de bola pelo meio. Por vezes, Kardec recompõe por um dos lados, cobrindo um dos atacantes, dando tempo para que ele recupere o fôlego após alguma ação ofensiva.

Quando está vencendo e sendo pressionado, normalmente Gilson Kleina coloca Eguren em campo, formando duas linhas de quatro bem próximas, com o intuito de segurar o resultado e garantir a vitória.

Quando está ganhando e sendo pressionado, Eguren entra para jogar ao lado de Marcio Araujo. Uma linha de quatro é formada na frente da defesa, enquanto no ataque normalmente entra Serginho ou Ananias para re-oxigenar a busca pelo contra-ataque definitivo.
A equipe do Palmeiras é agressiva e vertical, porém por vezes peca em não saber segurar a bola e fazê-la girar. Quando consegue virar o jogo, a jogada termina do outro lado. Raramente a bola sai de um lado para outro e depois volta no mesmo lance. Isso seria fundamental principalmente contra defesas mais fechadas (o que acontece em praticamente todas as partidas da série B). Essa falta de paciência com a bola tem reflexo também no sistema defensivo: ao perder em demasia a bola, a equipe expõe a última linha defensiva, que apresenta falhas de posicionamento e cobertura que uma equipe de primeiro nível não pode cometer, e isso passa mais por treino e ações do treinador que por falhas individuais propriamente ditas. O Palmeiras tem boa produção ofensiva, porém sofre mais gols e mais derrotas que o aceitável para o nível do campeonato disputado.

O elenco atual está dando para o gasto para a disputa da série B, porém, se quiser sonhar com algo no ano do centenário é de fundamental importância que consiga reforços pontuais, que cheguem para ser titular. A manutenção do elenco (inclusive Kardec), com dois ou três atletas que cheguem para vestir a camisa e sair jogando, a meu ver, bastam para formar uma equipe competitiva, além da troca do comando técnico. Eu, pessoalmente, iria atrás de Mano Menezes, Zé Roberto (encostado no Grêmio), Marcelo Nicácio (excelente atacante do Atlético-PR), Elias (do Flamengo) e procuraria alguém capaz de assumir a lateral esquerda.

*Amplitude: distância entre uma lateral ou outra- jogar em amplitude = “abrir o jogo”.

Profundidade: Distância entre uma linha de fundo e outra- jogar em profundidade = buscar a linha de fundo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

As funções dos laterais: um mergulho através das copas.

          Assim como em todas as outras posições, as funções do lateral foram sofrendo ajustes ao longo dos anos, de acordo com mudanças táticas promovidas pelos treinadores.
      Até o fim dos anos 1960 os laterais quase não subiam ao ataque.  Se tanto, chegavam até a intermediária ofensiva, de onde passavam a bola para um meia ou ponta e não subiam mais. Eram basicamente zagueiros pelos lados, compondo uma clara linha de quatro, praticamente imutável durante o jogo.

O ponta Zagallo cobrando lateral próximo a linha de fundo na copa de 1958. Laterais subiam no máximo até a intermediária ofensiva.
         Na copa de 1970, os jogadores conversavam muito entre si, discutindo posições, movimentações e estratégias de jogo, á revelia do técnico Zagallo. Eram atletas inteligentes e que sabiam enxergar e discutir o jogo.
      Tendo em vista o vigor físico de Carlos Alberto Torres e sabendo que os pontas das equipes adversárias não tinham o costume de acompanhar as subidas do lateral (afinal, o lateral ainda pouco subia na época), uma das jogadas combinadas era que Jairizinho buscasse o centro ou até o outro lado do campo, abrindo assim um corredor para a infiltração de Torres. Dentre outras jogadas, saiu assim o último gol da final contra a Itália. Desde então, os laterais começaram, ainda que timidamente a ganhar funções ofensivas, deixando de ser zagueiros pelos lados.

Carlos Alberto Torres sobe para fazer gol sobre a Itália na final da Copa do Mundo de 1970.
         Em 1982, uma seleção espetacular, com jogadores altamente técnicos e que trocavam constantemente de posição. Como contava com muitos meias de qualidade (Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico), Telê Santana abriu mão de um ponta, deixando apenas Éder de ponta esquerda e a ponta direita “vazia”, gerando um revezamento de atletas que ocupavam o setor: Falcão, Sócrates e o lateral direito Leandro. Do outro lado, como Éder ficava na ponta, Junior subia por dentro, armando o time juntos aos meias e aparecendo para passar/finalizar (fato que era facilitado por ser destro). Estranhando o desenho tático, criou-se um mantra, exemplificado por um bordão de Jô Soares: “Coloca ponta, Telê!”. O futebol bonito e envolvente ficou na memória, porém a eliminação antes da final embasou o argumento de quem defendia o uso dos pontas.

Júnior subia por dentro, participando ativamente da construção de jogadas ofensivas ao lado dos meias, em 1982.

Na ausência de um ponta direita, Leandro subia até o fundo, revezando-se com Falcão e Sócrates.
        Desde então, tornou-se comum o uso de quatro meias, e os pontas foram se extinguindo. Sendo assim, os responsáveis pela amplitude e profundidade do jogo passaram a ser os laterais, que começaram a subir com maior frequência. Os dois maiores símbolos dessa geração são Roberto Carlos e Cafu. Com vigor físico para chegar á linha de fundo, realizar cruzamentos e ainda voltar para compor a linha defensiva, tornaram-se um parâmetro muito difícil de atingir.

Cafu era figura carimbada no ataque na Copa de 1998. Repare que ele está á frente até do centroavante Ronaldo.
Enquanto Cafu nem aparece na foto, Roberto Carlos faz a cobertura por dentro, posicionando-se praticamente como terceiro zagueiro.
Roberto Carlos também era figura constante nas ações ofensivas da seleção de 1998. Repare que, assim como Cafu, ele também se apresenta á frente do centroavante Ronaldo.
 Começaram a surgir cada vez mais laterais bons no apoio, porém com dificuldades defensivas. A fim de compensar isso, os treinadores passaram a se usar de volantes estritamente marcadores e de terceiros zagueiros. Com isso, permitia-se aos dois laterais subirem simultaneamente e realizar a saída de bola sem se preocupar tanto com obrigações defensivas.
 Na Copa de 2002, Edmilson era o volante/zagueiro, que se posicionava de acordo com o número de atacantes do adversário e dava liberdade para Cafu e Roberto Carlos (ambos sem o vigor físico de outrora) apoiarem o ataque.

O volante/zagueiro Edmilson dava liberdade para que Cafu e Roberto Carlos subissem simultaneamente ao ataque em 2002.
Ultimamente, com laterais bem marcados na saída de bola e volantes com poucos recursos para realizar a função, o uso de três zagueiros saiu de moda, dando lugar a esquemas com volantes de passe qualificado e meias abertos (praticamente os pontas de antigamente). Com isso, os laterais voltaram a ter maiores obrigações defensivas. Os principais times do mundo hoje jogam com uma linha defensiva de quatro jogadores, sendo que ou os laterais apoiam alternadamente (como era no Brasil de 1998), ou o time conta com um lateral-base, que fica basicamente como terceiro zagueiro e um lateral com maior qualidade para atacar. Inclusive é comum improvisar zagueiros na lateral.
 Dentre os exemplos de equipes atuais ou recentes que utilizam um lateral-base e outro mais apoiador temos: o Barcelona de Guardiola (com Abidal mais fixo e Dani Alves com liberdade) e o Atlétco_MG atual campeão da Libertadores (com Junior Cesar- ou Richarlyson- mais fixo e Marcos Rocha com maior liberdade). Na última Copa, a seleção espanhola pouco subia seus laterais, e quando subia normalmente era o Sergio Ramos pela direita. No lado oposto, Capdevilla segurava mais como terceiro zagueiro. No Brasil atual, Dani Alves e Marcelo revezam-se no apoio, compondo a última linha defensiva quando necessário.

Na seleção espanhola campeã do mundo de 2010, Sergio Ramos era o lateral apoiador, enquanto Capdevilla era o lateral-base do lado oposto.

É evidente que não existem regras quanto á formações, estratégias ou desenhos táticos utilizados em cada época. Em todas as épocas temos times ou seleções que jogavam de maneira diferente da tendência. O Blog se apoia justamente nisso, na tendência de cada época para suas conclusões. E não existe uma maneira pior ou melhor de se jogar. Isso depende de uma série de fatores, como atletas disponíveis, preparo físico, filosofia do treinador, objetivos do jogo, entre muitos outros.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Gylmar; De Sordi... a Seleção Campeã do Mundo de 58

Os dois primeiros nomes da escalação da seleção campeã do mundo de 1958 (De Sordi foi titular durante toda a campanha, ficando de fora somente da final, por lesão, quando deu lugar a Djalma Santos) faleceram nesse último fim de semana.

Gylmar e De Sordi: integrantes da campanha do título mundial de 58
Quando pequeno, eu gostava de decorar as escalações dos times históricos do Palmeiras e da seleção brasileira. Sabia de cor o time da final de 58 e sempre via matérias ou lia reportagens a respeito do título. Sabia que Pelé e Garrincha viraram titular ao longo da copa, que Zagallo praticamente “inventou”  o 4-3-3,que Didi criou o “folha seca” e que os laterais pouco avançavam na época. Porém não sabia exatamente como jogava o time, coisa que hoje é possível graças ao Youtube. Vi a final entre Brasil e Suécia na integra.
A primeira linha defensiva era formada por Bellini e Orlando no comando da defesa e De Sordi (Djalma Santos na final) e Nilton Santos nas laterais. Quando muito, os laterais subiam até a intermediária ofensiva, de onde tocavam para o ponta ou um dos meias. Na época ainda não faziam ultrapassagens ou entravam na área.

Zagallo cobrando lateral próximo a linha de fundo: quando muito, os laterais subiam até a intermediária ofensiva.
A dupla de meias era Zito e Didi, ambos extremamente técnicos (principalmente o segundo, que tinha grande controle de bola). Marcavam um pouco atrás do círculo central e, com a bola, ocupavam simultaneamente a intermediária ofensiva (o que era possível graças os posicionamento conservador dos laterais), onde procuravam rodar a bola, enfiar para as ultrapassagens de Garrincha ou fazer tabelas com os atacantes.
Os pontas Garrincha e Zagallo tinham posturas e funções diferentes dentro de campo. Zagallo recuava e compunha o meio junto de Zito e Didi, ajudando na marcação e sendo o principal responsável pela saída de bola (não tive acesso aos dados estatísticos do jogo, mas acredito que Zagallo tenha sido o que mais tocou na bola). Grande parte das jogadas saía da esquerda, passava pelo meio e chegada aos pés de Garrincha na ponta oposta, onde ele ia para cima da marcação, procurando as jogadas agudas. Os dois primeiros gols da final, inclusive, saíram de cruzamentos seus para Vavá.

Zagallo (número 7) compondo o meio de campo ao lado de Didi: ajuda na marcação e principal responsável pela saída de bola da equipe.
Muito se diz que Pelé era o ponta de lança, enquanto Vavá era o centroavante da equipe, porém eles formavam uma dupla de ataque. Tinham poucas obrigações defensivas e, quando time tinha a bola, se revezavam entre buscar o jogo fora da área e entrar para finalizar. Fizeram dois gols cada na final, todos como autêntico centroavante.

Pelé e Vavá lado ao lado: sem muitas obrigações defensivas e revezando-se entre buscar a bola e finalizar a jogada.
É possível encontrar nesse jogo muitos aspectos conceituais semelhantes aos que vemos no futebol atual: volantes com bom controle de bola e bom passe, meias pelos lados com funções diferentes (um mais armador e outro mais incisivo), mobilidade (vista no revezamento e funções entre Pelé e Vavá)...

Os homens se vão, vencidos pela idade e pelas doenças, mas os heróis da primeira Copa conquistada pelo Brasil ficam para sempre guardados em memórias, histórias, matérias e vídeos.

Panorama geral da seleção de 58, com laterais sem buscar o fundo, Zagallo compondo o meio de campo, Garrincha mais incisivo e Pelé e Vavá alternando funçòes.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Os “Camisa 10” ainda existem

              Quando falamos do “autêntico” camisa 10, logo nos vem a imagem, meio utópica, do craque, aquele jogador de classe, que joga com a cabeça em pé, tem habilidade e boa qualidade técnica, organiza o time em campo com passes e palavras e ainda chama a responsabilidade para decidir partidas.

                Difícil achar um jogador que reúna tantas qualidades, mas nesse Campeonato Brasileiro fomos agraciados com quatro atletas que se encaixam no perfil do camisa 10, atletas os quais fazem valer a pena cada centavo gasto no ingresso (sem colocar aqui em discussão o valor dos ingressos- é só forma de expressão): Alex, do Coritiba, Seedorf, do Botafogo, Juninho Pernambucano, do Vasco , e Zé  Roberto, do Grêmio.

Alex, Seedorf, Juninho Pernambucano e Zé Roberto: craques com a bola nos pés, inteligência tática e líderes em sua equipe (detalhe para a faixa de capitão no braço dos quatro).

                  Os dois primeiros estão em maior evidência por se encontrar em equipe melhor organizada e em melhor fase. Vale a ressalva aqui que o craque é tão importante para o time quanto o time é para o craque, ou seja, em times mal organizados, dificilmente um jogador conseguirá desempenhar seu melhor papel.
                Em comum entre eles, além das qualidades citadas acima, a liberdade que têm em campo: pela inteligência tática e capacidade de leitura de jogo, não precisam de funções tão específicas, podem mudar posicionamento e funções de acordo com características do adversário e situação do jogo. São praticamente um segundo treinador em campo. É importante ressaltar que essa liberdade só é possível se o treinador tiver a cabeça aberta para ouvir as opiniões dos atletas e esses jogadores saibam respeitar o comando e deixar a palavra final com o técnico.
                Além da inteligência tática e do espírito de liderança, os quatro atletas citados são extremamente profissionais. Cuidam bem do corpo, não cometem excessos, permitindo que cheguem aos mais de 30 anos em excelente forma física.
                Nesse caso, as imagens valem muito mais que qualquer palavra, então seguem abaixo alguns vídeos ilustrando as qualidades dos atletas citados.