O blog Conceitos Táticos, como o próprio nome entrega, visa abordar os conceitos táticos no mundo do futebol. Meu objetivo é analisar, provocar, fazer pensar, discutir e tirar dúvidas sobre o assunto. Estou sempre aberto a opiniões, sugestões, críticas, perguntas, discordâncias e etc.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

As funções dos laterais: um mergulho através das copas.

          Assim como em todas as outras posições, as funções do lateral foram sofrendo ajustes ao longo dos anos, de acordo com mudanças táticas promovidas pelos treinadores.
      Até o fim dos anos 1960 os laterais quase não subiam ao ataque.  Se tanto, chegavam até a intermediária ofensiva, de onde passavam a bola para um meia ou ponta e não subiam mais. Eram basicamente zagueiros pelos lados, compondo uma clara linha de quatro, praticamente imutável durante o jogo.

O ponta Zagallo cobrando lateral próximo a linha de fundo na copa de 1958. Laterais subiam no máximo até a intermediária ofensiva.
         Na copa de 1970, os jogadores conversavam muito entre si, discutindo posições, movimentações e estratégias de jogo, á revelia do técnico Zagallo. Eram atletas inteligentes e que sabiam enxergar e discutir o jogo.
      Tendo em vista o vigor físico de Carlos Alberto Torres e sabendo que os pontas das equipes adversárias não tinham o costume de acompanhar as subidas do lateral (afinal, o lateral ainda pouco subia na época), uma das jogadas combinadas era que Jairizinho buscasse o centro ou até o outro lado do campo, abrindo assim um corredor para a infiltração de Torres. Dentre outras jogadas, saiu assim o último gol da final contra a Itália. Desde então, os laterais começaram, ainda que timidamente a ganhar funções ofensivas, deixando de ser zagueiros pelos lados.

Carlos Alberto Torres sobe para fazer gol sobre a Itália na final da Copa do Mundo de 1970.
         Em 1982, uma seleção espetacular, com jogadores altamente técnicos e que trocavam constantemente de posição. Como contava com muitos meias de qualidade (Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico), Telê Santana abriu mão de um ponta, deixando apenas Éder de ponta esquerda e a ponta direita “vazia”, gerando um revezamento de atletas que ocupavam o setor: Falcão, Sócrates e o lateral direito Leandro. Do outro lado, como Éder ficava na ponta, Junior subia por dentro, armando o time juntos aos meias e aparecendo para passar/finalizar (fato que era facilitado por ser destro). Estranhando o desenho tático, criou-se um mantra, exemplificado por um bordão de Jô Soares: “Coloca ponta, Telê!”. O futebol bonito e envolvente ficou na memória, porém a eliminação antes da final embasou o argumento de quem defendia o uso dos pontas.

Júnior subia por dentro, participando ativamente da construção de jogadas ofensivas ao lado dos meias, em 1982.

Na ausência de um ponta direita, Leandro subia até o fundo, revezando-se com Falcão e Sócrates.
        Desde então, tornou-se comum o uso de quatro meias, e os pontas foram se extinguindo. Sendo assim, os responsáveis pela amplitude e profundidade do jogo passaram a ser os laterais, que começaram a subir com maior frequência. Os dois maiores símbolos dessa geração são Roberto Carlos e Cafu. Com vigor físico para chegar á linha de fundo, realizar cruzamentos e ainda voltar para compor a linha defensiva, tornaram-se um parâmetro muito difícil de atingir.

Cafu era figura carimbada no ataque na Copa de 1998. Repare que ele está á frente até do centroavante Ronaldo.
Enquanto Cafu nem aparece na foto, Roberto Carlos faz a cobertura por dentro, posicionando-se praticamente como terceiro zagueiro.
Roberto Carlos também era figura constante nas ações ofensivas da seleção de 1998. Repare que, assim como Cafu, ele também se apresenta á frente do centroavante Ronaldo.
 Começaram a surgir cada vez mais laterais bons no apoio, porém com dificuldades defensivas. A fim de compensar isso, os treinadores passaram a se usar de volantes estritamente marcadores e de terceiros zagueiros. Com isso, permitia-se aos dois laterais subirem simultaneamente e realizar a saída de bola sem se preocupar tanto com obrigações defensivas.
 Na Copa de 2002, Edmilson era o volante/zagueiro, que se posicionava de acordo com o número de atacantes do adversário e dava liberdade para Cafu e Roberto Carlos (ambos sem o vigor físico de outrora) apoiarem o ataque.

O volante/zagueiro Edmilson dava liberdade para que Cafu e Roberto Carlos subissem simultaneamente ao ataque em 2002.
Ultimamente, com laterais bem marcados na saída de bola e volantes com poucos recursos para realizar a função, o uso de três zagueiros saiu de moda, dando lugar a esquemas com volantes de passe qualificado e meias abertos (praticamente os pontas de antigamente). Com isso, os laterais voltaram a ter maiores obrigações defensivas. Os principais times do mundo hoje jogam com uma linha defensiva de quatro jogadores, sendo que ou os laterais apoiam alternadamente (como era no Brasil de 1998), ou o time conta com um lateral-base, que fica basicamente como terceiro zagueiro e um lateral com maior qualidade para atacar. Inclusive é comum improvisar zagueiros na lateral.
 Dentre os exemplos de equipes atuais ou recentes que utilizam um lateral-base e outro mais apoiador temos: o Barcelona de Guardiola (com Abidal mais fixo e Dani Alves com liberdade) e o Atlétco_MG atual campeão da Libertadores (com Junior Cesar- ou Richarlyson- mais fixo e Marcos Rocha com maior liberdade). Na última Copa, a seleção espanhola pouco subia seus laterais, e quando subia normalmente era o Sergio Ramos pela direita. No lado oposto, Capdevilla segurava mais como terceiro zagueiro. No Brasil atual, Dani Alves e Marcelo revezam-se no apoio, compondo a última linha defensiva quando necessário.

Na seleção espanhola campeã do mundo de 2010, Sergio Ramos era o lateral apoiador, enquanto Capdevilla era o lateral-base do lado oposto.

É evidente que não existem regras quanto á formações, estratégias ou desenhos táticos utilizados em cada época. Em todas as épocas temos times ou seleções que jogavam de maneira diferente da tendência. O Blog se apoia justamente nisso, na tendência de cada época para suas conclusões. E não existe uma maneira pior ou melhor de se jogar. Isso depende de uma série de fatores, como atletas disponíveis, preparo físico, filosofia do treinador, objetivos do jogo, entre muitos outros.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Gylmar; De Sordi... a Seleção Campeã do Mundo de 58

Os dois primeiros nomes da escalação da seleção campeã do mundo de 1958 (De Sordi foi titular durante toda a campanha, ficando de fora somente da final, por lesão, quando deu lugar a Djalma Santos) faleceram nesse último fim de semana.

Gylmar e De Sordi: integrantes da campanha do título mundial de 58
Quando pequeno, eu gostava de decorar as escalações dos times históricos do Palmeiras e da seleção brasileira. Sabia de cor o time da final de 58 e sempre via matérias ou lia reportagens a respeito do título. Sabia que Pelé e Garrincha viraram titular ao longo da copa, que Zagallo praticamente “inventou”  o 4-3-3,que Didi criou o “folha seca” e que os laterais pouco avançavam na época. Porém não sabia exatamente como jogava o time, coisa que hoje é possível graças ao Youtube. Vi a final entre Brasil e Suécia na integra.
A primeira linha defensiva era formada por Bellini e Orlando no comando da defesa e De Sordi (Djalma Santos na final) e Nilton Santos nas laterais. Quando muito, os laterais subiam até a intermediária ofensiva, de onde tocavam para o ponta ou um dos meias. Na época ainda não faziam ultrapassagens ou entravam na área.

Zagallo cobrando lateral próximo a linha de fundo: quando muito, os laterais subiam até a intermediária ofensiva.
A dupla de meias era Zito e Didi, ambos extremamente técnicos (principalmente o segundo, que tinha grande controle de bola). Marcavam um pouco atrás do círculo central e, com a bola, ocupavam simultaneamente a intermediária ofensiva (o que era possível graças os posicionamento conservador dos laterais), onde procuravam rodar a bola, enfiar para as ultrapassagens de Garrincha ou fazer tabelas com os atacantes.
Os pontas Garrincha e Zagallo tinham posturas e funções diferentes dentro de campo. Zagallo recuava e compunha o meio junto de Zito e Didi, ajudando na marcação e sendo o principal responsável pela saída de bola (não tive acesso aos dados estatísticos do jogo, mas acredito que Zagallo tenha sido o que mais tocou na bola). Grande parte das jogadas saía da esquerda, passava pelo meio e chegada aos pés de Garrincha na ponta oposta, onde ele ia para cima da marcação, procurando as jogadas agudas. Os dois primeiros gols da final, inclusive, saíram de cruzamentos seus para Vavá.

Zagallo (número 7) compondo o meio de campo ao lado de Didi: ajuda na marcação e principal responsável pela saída de bola da equipe.
Muito se diz que Pelé era o ponta de lança, enquanto Vavá era o centroavante da equipe, porém eles formavam uma dupla de ataque. Tinham poucas obrigações defensivas e, quando time tinha a bola, se revezavam entre buscar o jogo fora da área e entrar para finalizar. Fizeram dois gols cada na final, todos como autêntico centroavante.

Pelé e Vavá lado ao lado: sem muitas obrigações defensivas e revezando-se entre buscar a bola e finalizar a jogada.
É possível encontrar nesse jogo muitos aspectos conceituais semelhantes aos que vemos no futebol atual: volantes com bom controle de bola e bom passe, meias pelos lados com funções diferentes (um mais armador e outro mais incisivo), mobilidade (vista no revezamento e funções entre Pelé e Vavá)...

Os homens se vão, vencidos pela idade e pelas doenças, mas os heróis da primeira Copa conquistada pelo Brasil ficam para sempre guardados em memórias, histórias, matérias e vídeos.

Panorama geral da seleção de 58, com laterais sem buscar o fundo, Zagallo compondo o meio de campo, Garrincha mais incisivo e Pelé e Vavá alternando funçòes.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Os “Camisa 10” ainda existem

              Quando falamos do “autêntico” camisa 10, logo nos vem a imagem, meio utópica, do craque, aquele jogador de classe, que joga com a cabeça em pé, tem habilidade e boa qualidade técnica, organiza o time em campo com passes e palavras e ainda chama a responsabilidade para decidir partidas.

                Difícil achar um jogador que reúna tantas qualidades, mas nesse Campeonato Brasileiro fomos agraciados com quatro atletas que se encaixam no perfil do camisa 10, atletas os quais fazem valer a pena cada centavo gasto no ingresso (sem colocar aqui em discussão o valor dos ingressos- é só forma de expressão): Alex, do Coritiba, Seedorf, do Botafogo, Juninho Pernambucano, do Vasco , e Zé  Roberto, do Grêmio.

Alex, Seedorf, Juninho Pernambucano e Zé Roberto: craques com a bola nos pés, inteligência tática e líderes em sua equipe (detalhe para a faixa de capitão no braço dos quatro).

                  Os dois primeiros estão em maior evidência por se encontrar em equipe melhor organizada e em melhor fase. Vale a ressalva aqui que o craque é tão importante para o time quanto o time é para o craque, ou seja, em times mal organizados, dificilmente um jogador conseguirá desempenhar seu melhor papel.
                Em comum entre eles, além das qualidades citadas acima, a liberdade que têm em campo: pela inteligência tática e capacidade de leitura de jogo, não precisam de funções tão específicas, podem mudar posicionamento e funções de acordo com características do adversário e situação do jogo. São praticamente um segundo treinador em campo. É importante ressaltar que essa liberdade só é possível se o treinador tiver a cabeça aberta para ouvir as opiniões dos atletas e esses jogadores saibam respeitar o comando e deixar a palavra final com o técnico.
                Além da inteligência tática e do espírito de liderança, os quatro atletas citados são extremamente profissionais. Cuidam bem do corpo, não cometem excessos, permitindo que cheguem aos mais de 30 anos em excelente forma física.
                Nesse caso, as imagens valem muito mais que qualquer palavra, então seguem abaixo alguns vídeos ilustrando as qualidades dos atletas citados.





segunda-feira, 1 de julho de 2013

Revelação da Copa das Confederações: Luiz Felipe Scolari


          “Nunca pare de aprender. A vida nunca para de ensinar”.  Os estudos, a tecnologia, a comunicação e as novas idéias fazem com que sempre haja novidades em qualquer ramo. No futebol, não é diferente. Metodologias de treino, conceitos e estratégias de jogo, ocupação do campo e preparação física vão se renovando com o tempo. Os técnicos brasileiros têm sido ultimamente criticados pelo pouco estudo, por manter idéias hoje consideradas arcaicas, e com Felipão não era diferente (inclusive em seu último trabalho realizado, no Palmeiras).
        A atuação brasileira na final da Copa das Confederações foi excepcional, não tanto pelo resultado, mas principalmente pela postura da equipe em campo.
      Aproveitando o apoio da torcida, marcação por pressão e intensidade nos primeiros 20 minutos. Atacantes participando da marcação, volantes ocupando o campo de ataque, defesa alta deixando a equipe compacta. Assim como no Corinthians, Paulinho por muitas vezes se alinhava ao trio de meias, formando praticamente um paredão, dificultando a seleção espanhola de entrar na intermediária ofensiva, sua zona de conforto.
        Após os primeiros 20 minutos, uma pequena diminuição na intensidade, com Paulinho mais próximo de Luiz Gustavo, mas sempre com até nove jogadores ocupando a intermediária, negando espaços e tirando a opção imediata de passe dos meias espanhóis, fazendo com que eles forçassem o jogo e errassem mais que o normal (juntos, Iniesta e Xavi acertaram 90% dos passes, um número ainda considerável, porém a pior média de acertos deles em toda a competição).
        Ofensivamente, muita velocidade. Bolas diagonais longas, procurando principalmente Neymar pra cima de um perdido Arbeloa, tabelas rápidas e muitas ultrapassagens. Fred, o “centroavante de referência”, não se limitou a ficar parado dentro da área, tendo participação na marcação e na mobilidade ofensiva (como, por exemplo, no terceiro gol, quando partiu em diagonal pela esquerda).
        Ao fim do jogo, com o resultado consolidado e a seleção espanhola com um a menos e entregue, duas linhas de quatro bem definidas e as entradas de Jadson e Hernanes, qualificando a troca de passes curtos, valorizando a posse de bola e evitando dessa maneira correr maiores riscos defensivos. Ao final, 48% de posse de bola, quase empatando com a seleção espanhola.
       Jogo vertical e entrega na marcação eram armas conhecidas de Felipão. A novidade fica por conta de uma maior compactação, marcação pressão alta, intensidade e até mesmo a valorização da posse de bola para segurar o resultado. E Paulinho mostra que volante faz gol sim e não é bonito só para a imprensa.
      Podemos dizer sim, que melhorou, que evoluiu, que surpreendeu e que teve uma atuação espetacular, mas ainda há trabalho a ser feito. A evolução deve continuar e Felipão sabe disso. Em nenhum momento da Copa das Confederações o Brasil se viu com o placar adverso: como lidaria com isso, psicológica e taticamente?  Hulk, apesar da aplicação tática e do preparo físico, destoa tecnicamente do resto do time. Para mim, o jogador ideal para realizar essa função (dublê de atacante, meia e volante) dentro da proposta do Felipão é o Ramires.  David Luiz teve atuação soberana na final, porém, assim como Marcelo, é capaz de ações impensadas que podem colocar em risco a seleção (como os pênaltis cometidos por ambos na semi e na final). Por vezes, principalmente no fim dos jogos, a defesa recua em excesso, descompactando um pouco o time. Quando os laterais são bem marcados, a equipe sente dificuldades na saída de bola, sendo necessária uma maior participação dos volantes e meias nesse processo.
       Talvez também contando com a contribuição dos jogadores, que atuam em sua maioria em cubes com técnicos atualizados, talvez com a ajuda de Carlos Alberto Parreira, um estudioso do futebol, Luiz Felipe Scolari mostra que é possível sim se reinventar e aderir a conceitos modernos, sem deixar de lado convicções antigas. Vamos acompanhar seu trabalho até a Copa do Mundo e torcer para que a seleção continue se atualizando e evoluindo.

Pressão na saída de bola espanhola, com participação de Paulinho, o volante que faz gols. 

Bloqueio no meio de campo, dificultando a Espanha de entrar na intermediaria ofensiva, sua zona de conforto.

No fim do jogo, linha de quatro bem definida no meio, porem  linha defensiva recuada em excesso, descompactando a equipe.

Fred participando da mobilidade ofensiva: referencia móvel, dificultando a marcação da equipe adversaria. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Atlético-MG de Cuca: Intensidade, Mobilidade e Velocidade


            Alex Fergunson está se aposentando agora após mais de duas décadas no comando do Manchester United, e os clubes brasileiros parecem estar descobrindo agora uma receita simples de sucesso: manutenção do técnico, pequenos ajustes no elenco e tempo e tranqüilidade para colher os frutos do trabalho. Foi assim com o Corinthians de Tite, campeão da Libertadores e do mundo e está sendo assim agora com o Atlético-MG de Cuca, dono do futebol mais vistoso do ano. A continuidade e os pequenos ajustes no bom trabalho do ano passado (o principal deles a contratação de Diego Tardelli) traz resultados que uma reformulação drástica (recurso comum por aqui) dificilmente traria.

O quarteto ofensivo do Galo: qualidade, continuidade, trabalho e entrosamento entre os segredos do sucesso.
            No atual texto irei focar na dinâmica do quarteto ofensivo atleticano (e bota dinâmica nisso). No desenho inicial, temos Ronaldinho na articulação central, Diego Tardelli pela direita, Bernard pela esquerdae Jô na referência. Porém não vemos em campo esse desenho inicial sendo respeitado. Há muita troca de posição e de função durante as partidas, aproveitando a qualidade e o entrosamento dos atletas e indefinindo a marcação da equipe adversária. Jô recua, os atacantes pelos lados fazem diagonais e aparecem como referência, Ronaldinho abre pela esquerda... tudo isso com o apoio principalmente de Marcos Rocha pela direita e de Leandro Donizete pelo meio.
            A impressionante capacidade física de Jô é bastante e muito bem explorada pela equipe, que usa bastante dos lançamentos longos, principalmente de Rever e Leandro Donizete. Cabe aqui uma ressalva: as “quebras” de bola procurando Jô não se dão por falta de recursos ofensivos da equipe, mas sim como uma poderosa arma, muito bem treinada e muito bem articulada.
            Nas fotos abaixo, vemos quatro situações diferentes ocorrendo nos quatro gols do Atlético na partida contra o São Paulo pela Libertadores. Escolhi o mesmo jogo para retratar como em um único hoje a equipe pode usar um grande leque de armas. Reparem como os gols saem de diversos setores do campo: lançamentos longos, jogadas pela direita e jogadas pela esquerda. 
            A imprevisibilidade do futebol não permite cravar o Atlético como campeão da Libertadores ou do Brasileirão, mas é hoje o time que mais encanta e impressiona no Brasil. A velocidade e a intensidade impostas, principalmente em casa, a fome de gols, e tudo isso de maneira muito bem treinada, articulada e executada. Torcemos para ver mais equipes como o Atlético-MG de hoje. 

No primeiro gol: Jô voltou para disputar lançamento pelo alto e ficou na posição do articulador central. Tardelli partindo da direita, Ronaldinho abrindo pela esquerda e Bernard na referência.

No segundo gol, jogada pela direita: time "certo" com Tardelli na direita, Ronaldinho na articulação central , Jô na referência e Bernard na esquerda.

No terceiro gol: Jô volta para ajudar a marcação e deixa Tardelli na referência, aproveitando sua velocidade na transição ofensiva rápida, partindo de uma ligação direta do goleiro Victor.

No terceiro gol, Ronaldinho arranca pela esquerda mostrando seu repertório de dribles, enquanto Tardelli está na referência, Jô na posição do articulador central e Bernard dessa vez pelo lado direito.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Os Países do Futebol são a Espanha e a Alemanha


             Dos quatro classificados para as semi-finais da UCL dois são espanhóis e dois são alemães. Todos disputaram as quartas de final na condição de favorito e venceram. A promessa é de grandes duelos. E a classificação de quatro equipes desses dois países não é pura coincidência ou sorte. É fruto de grandes investimentos e, principalmente, trabalho bem feito.
            A seleção espanhola vem papando títulos importantes desde 2008: já são duas Eurocopas e uma Copa do Mundo nesse período, tendo como base a equipe do Barcelona, reforçada por jogadores importantes do Real Madrid. Já a seleção alemã, apesar de não ter conquistado títulos nesse período, foi vice da Eurocopa de 2008 e semifinalista da Copa do Mundo de 2010 e da Eurocopa de 2012, tendo uma base ainda jovem e promissora, composta principalmente de atletas do Bayern de Munique e do Borusia Dortmound. Não é a toa que essas são justamente as seleções apontadas como grande favoritas da Copa do Mundo de 2014, superando inclusive a Argentina de Messi e o Brasil.
            Em comum entre as equipes: manutenção da filosofia de jogo, manutenção do elenco, contratações/reposições pontuais e a intensidade de jogo proposta. Jurgen Klopp está à frente do Dortmound à 5 anos, Jupp Heynckes comanda o Bayern à dois anos e Mourinho está no Real faz 3 anos.O único “estreante” aqui é Tito Vilanova, do Barcelona, porém deve-se levar em consideração que ele já trabalhava no clube desde 2007 como assistente, ou seja, houve continuidade na filosofia de trabalho.

Manutenção do trabalho: um dos grandes segredos do sucesso dessas equipes.

            Exceção feita ao Barcelona, a proposta de jogo e o desenho tático das três outras equipes é bastante similar: 4-2-3-1 da moda, com intensidade e movimentação em torno da referência. Com a bola, passes verticais e diagonal dos meias pelo lado em busca da rápida finalização da jogada. Uma dupla de volantes com passe qualificado, sendo um que chega mais ao ataque e outro que fica mais contido. Na referência um jogador forte que não só finaliza como também serve.

3 dos 4 semifinalistas têm proposta de jogo semelhante.

            Impossível apontar um favorito dentre os quatro semi-finalistas. Cabe a nós esquentar a pipoca e nos deliciar com a promessa de grandes jogos.
            A receita aqui é simples e básica, não tem nenhum grande segredo: trabalho, filosofia, continuidade, intensidade. Tendo técnicos bem preparados, um bom elenco em mãos, uma filosofia de jogo bem assimilada e um trabalho bem feito ao longo de pelo menos dois ou três anos, os resultados fatalmente surgirão.

sexta-feira, 22 de março de 2013

O São Paulo de Telê Campeão do Mundo de 1992


            Tendo em vista as más atuações recentes do São Paulo e a pressão recaindo sobre o técnico, Ney Franco, além das críticas pelas fracas atuações de Ganso, coloquei-me a pensar sobre como seria escalado o time se o técnico fosse outro. Com isso na cabeça, fui pesquisar como jogava o São Paulo campeão do mundo de 1992, sob a batuta de Telê Santana.
            Cabe ressaltar que a análise atual se baseia em apenas uma partida, sendo assim pode não condizer com a maneira como o time jogava de modo geral na época.

A formação do São Paulo campeão do Mundo de 1992

            A equipe atuava no 4-3-2-1, variável de acordo com o posicionamento e movimentação de Raí e Palinha, os dois meias. Palinha por muitas vezes se alinhava aos volantes, formando uma linha de quatro no meio, enquanto Raí encostava em Muller, formando a dupla de ataque. A marcação era feita quase sempre a partir da linha central do campo, porém com bastante intensidade sempre que o Barcelona ultrapassava a linha, tendo quase sempre oito atletas atrás da linha da bola. A marcação era bem executada e articulada, dificultando o progresso da equipe adversária.

A linha de três volantes e logo à frente os dois meias. Muita intensidade e pouco espaço para a equipe adversária no campo defensivo do São Paulo.

Palhinha retorna formando uma linha de quatro com os volantes, enquanto Raí fica na frente com Muller.

            Com a bola, o São Paulo apostava na transição em velocidade ou no contra-ataque, raramente valorizando a posse de bola. A equipe abusava de bolas longas, principalmente de Palinha e Cerezo, quase sempre procurando Muller, referência de velocidade que não ocupava em hipótese alguma a intermediária ofensiva. Mesmo jogando na referência, Muller não era centroavante, jogando mais pelos lados e abrindo espaço principalmente para Raí, que alternava os papéis de ponta de lança e centroavante.

Situação de contra-ataque: bola longa para Muller (que não retornava nunca para o campo defensivo) e projeção  rápida de Raí e Palhinha, praticamente um 4-3-3.

Muller era referência móvel, alvo dos lançamentos de Cerezo e Palhinha pela esquerda, enquanto Raí muitas vezes se portava como o centroavante da equipe, como na situação que gerou o primeiro gol (diga-se de passagem em jogada espetacular de Muller)

            Quando o time ficava mais com a bola, Cafu, Cerezo e esporadicamente um dos laterais tinham mais liberdade para sair para o jogo, enquanto Pintado ficava mais plantado atrás, junto com os zagueiros e o lateral oposto.
            Não foi necessariamente uma exibição de futebol-arte como a seleção de Telê dos anos 80, porém o sistema defensivo esteve muito bem articulado, marcando de forma intensa e bem organizada. Na frente a velocidade das transições e o fator Raí fizeram a diferença.

O 4-2-3-1 do São Paulo, mutante de acordo com o comportamento de Palhinha, que recuava  formando uma linha de quatro com os volantes e de Raí, que formava uma dupla de ataque com Muller.

            Ganso diz se inspirar em Raí, e realmente tem algumas características semelhantes, como a técnica refinada. Ney Franco poderia se inspirar na maneira que o São Paulo de Telê jogava e deixar Ganso mais à frente, próximo de Luis Fabiano e sem tanta obrigação defensiva, prendendo mais Jadson junto aos volantes qualificando o passe de trás e Oswaldo fazendo uma função semelhante à de Palhinha, voltando para compor a linha do meio de campo sem bola e projetando-se em velocidade com a posse. A maior diferença seria que enquanto Muller era uma referência de velocidade, Luis Fabiano é finalizador, sendo assim Ganso poderia recuar mais para armar com a bola do que Raí fazia.

Caso Ney Franco se inspirasse em Telê Santana: Jadson mais contido perto dos volantes, qualificando a saída de bola, inclusive com lançamentos longos, Oswaldo fechando a linha de quatro no meio e chegando no ataque, Ganso com menos obrigações defensivas e liberdade para armar o time.