O blog Conceitos Táticos, como o próprio nome entrega, visa abordar os conceitos táticos no mundo do futebol. Meu objetivo é analisar, provocar, fazer pensar, discutir e tirar dúvidas sobre o assunto. Estou sempre aberto a opiniões, sugestões, críticas, perguntas, discordâncias e etc.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Balanço da Eurocopa: vitória da mobilidade

         Em uma competição sem grandes zebras, chegaram mais longe as seleções que se propuseram a jogar bola. O presente texto vai abordar de forma breve o estilo de jogo de cada uma das quatro primeiras colocadas, procurando entender o que as levou a obter o êxito.

A seleção espanhola confirmou seu favoritismo e conquistou o título pela segunda vez consecutiva (com uma Copa do Mundo entre elas). Vicente del Bosque apostou em uma equipe sem centroavante de ofício, escalando Fábregas como “falso 9” na maioria das partidas.
Sem uma referência na frente, a equipe troca passes em busca de espaços e infiltrações pela diagonal de qualquer atleta da equipe, surpreendendo assim a equipe adversária. Jordi Alba foi um dos destaques da equipe executando o papel que Dani Alves executa no Barcelona, porém pela esquerda: ultrapassagem em velocidade pela lateral, “quebrando” o ritmo dos passes.
Na imagem abaixo é possível ver uma inversão de papel entre Fábregas e David Silva no lance que originou o primeiro gol da final (o que ocorreu diversas vezes durante a competição): Fábregas abre na direita e faz uma infiltração entre o lateral e o zagueiro para receber o passe em profundidade, enquanto David Silva atua na referência. Esse mecanismo foi discutido no post “Jogar sem Centroavante”.
Com a vantagem no placar, normalmente Vicente del Bosque colocava Fernando Torres e Pedro em campo, dois jogadores mais agudos, que jogam de maneira mais vertical, em direção ao gol. Com isso, ele se propunha a aproveitar os espaços deixados pela equipe adversária (que buscava o empate) em transições ofensivas rápidas ou contra-ataques, com o intuito de matar o jogo.

Troca de funções: Fábregas (círculo amarelo). o "centroavante" do time abre e faz a infiltração diagonal, enquanto David Silva, meia, fica na referência e abre o placar na final contra a Itália.

Um dos destaques da Espanha na Eurocopa: Jordi Alba realizando ultrapassagens em velocidade, "quebrando" o ritmo da equipe e gerando situações de gol (na imagem: o segundo gol contra a Itália na final).
Segunda colocada, a seleção italiana superou os escândalos políticos, os problemas de Balotelli, a desconfiança de torcedores e imprensa e o pouco tempo de trabalho de Cesar Prandelli e conseguiu mostrar um bom futebol (sem a tão rotulada retranca).
Nos dois primeiros jogos, a Italia atuou no 3-5-2, com De Rossi atuando como zagueiro. Á partir da terceira partida, De Rossi voltou pra sua posição original (meio de campo), formando um 4-4-2 com o meio em losango: Pirlo ficava na base, De Rossi e Marchisio nos lados e Montolivo no vértice mais avançado.
Assim como no Juventus campeão italiano desse ano, Pirlo atuava na base nas ações defensivas e qualificando a saída de bola, e avançava à frente dos ouros meias nas ações ofensivas, ações que foram discutidas aqui no post “Uma Maneira Diferente de Ordenar os Volantes”.

Pirlo atuando na base na marcação e na sáida de bola e participando ativamente das ações ofensivas (mecanismo discutido no post "Uma Maneira Diferente de Ordenar os Volantes").

Dentre as quatro primeiras colocadas, Portugal era a única que tinha uma postura tática mais fixa, apostando no jogo mais verticalizado e menos em posse de bola. Diferentemente de muitos times que jogam esperando o craque fazer a diferença, Portugal jogava para que o craque fizesse a diferença. Nani compunha o meio pela direita, em balanço defensivo que permitia a Cristiano Ronaldo não se preocupar muito com a marcação. Com a bola, as jogadas eram verticais e normalmente pelos lados do campo. Ora com Coentrão e Ronaldo pela esquerda e, principalmente, com Nani, João Moutinho e João Pereira pela direita, buscando o passe em diagonal para a infiltração de Ronaldo. Grande parte das jogadas perigosas de Portugal saíram dessa maneira (como pode ser visto na imagem abaixo).


Principal jogada de Portugal: situação de ataque armada pelo lado direito e passe para infiltração diagonal de Cristiano Ronaldo pelo lado oposto.

A Alemanha foi eliminada nas semifinais, mas foi a seleção que apresentou o futebol que mais empolgou público e imprensa (seu pior jogo foi justamente o da semi). Com um futebol envolvente, valorização da posse de bola e postura bastante ofensiva em campo, condições que só são conseguidas com eficiência se a organização e a filosofia estiverem bem assimiladas por toda a equipe.
O maior triunfo da equipe é ao mesmo tempo seu maior risco: uma equipe em que todos jogam. Tanto Sschweinsteiger quanto Khedira, os dois volantes, saem para o jogo (como pode ser visto na imagem abaixo). Não há um primeiro volante marcador, pronto para fazer coberturas e matar contra-ataques.
Ao mesmo tempo que envolve e sufoca, deixa espaços para contra-ataques, transições ofensivas e bolas longas. Para que esse risco seja diminuído, é necessário que os zagueiros estejam sempre atentos e não hesitem (o que foi visível no segundo gol da Itália: bola longa para Balotelli, Lahm tentou fazer linha de impedimento, mas demorou, deixando Balotelli em condição legal e sozinho).  

Khedira (amarelo) e Schweinsteiger (azul): os dois volantes da Alemanha participam efetivamente das ações ofensivas. Reparem como há sete jogadores alemães ocupando o último quarto do campo.

O risco que a Alemanha corre: bola longa nas costas da defesa. A indecisão de Lahm permitiu que Balotelli ficasse livre e em condição legal para marcar o segundo gol na semi.

O balanço final é: o futebol agradece. É possível chegar longe com futebol jogado, mobilidade, trocas de posições e trocas de passe. Muito do que foi observado já tinha sido abordado nesse espaço. A única das que chegaram longe e tem uma proposta diferente é Portugal, mas isso se deve ás características de seus jogadores (principalmente do seu craque- com a ressalva importantíssima que é válido jogar para que o craque brilhe, e não esperando que seu craque brilhe). 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Lições do Basquete: O Sistema de Triângulos

            Quem vive um pouco no mundo do esporte não precisa ser grande fã de basquete para ao menos ter ouvido falar do Chicago Bulls do Michael Jordan ou do L.A Lakers do Kobe Bryant e Shaquille O´Neal. Em comum entre essas equipes o treinador: Phill Jackson. Muitos dizem que é fácil ser campeão tendo os atletas que tinha em mãos, porém Jackson teve o mérito de implementar um conceito de jogo que potencializa as virtudes de seus atletas: o Sistema de Triângulos (ST).


Phill Jackson com Kobe Bryant e com Michael Jordan: grande sucesso na utilização do Sistema de Triângulos




               A abordagem do presente texto irá focar nos parâmetros conceituais que geram o ST, deixando de lado sua aplicação mais prática, pois além de ser mais complexa é até certo ponto específica do basquete e necessita de algumas adaptações para ser utilizada no futebol.
            O ST se baseia em alguns princípios, os quais devem ser entendidos e efetuados por todos os atletas da equipe. São eles:
           
            *Evitar o drible: o drible excessivo atrasa a equipe e facilita a recomposição do adversário. O drible pode ser efetuado e deve ser estimulado, desde que seja com um objetivo bem definido. O ideal é que a equipe toque a bola até encontrar uma situação de 1x1 sem cobertura, quando o drible torna-se uma arma útil.

            *Passar a bola para o jogador mais livre: na teoria parece simples, porém na prática isso depende da participação de todos os atletas em campo. A equipe não procura a todo momento o craque do time, nem exclui nenhum jogador de suas ações ofensivas. Isso obriga a defesa adversária a segmentar sua atenção a todos os atacantes, dificultando assim as dobras de marcação e as coberturas.

            *Ao receber, olhar para o gol: sempre que o atleta tem a bola, ele deve representar uma ameaça ao adversário, então deve estar sempre de frente ao gol. Quando recebe a bola de costas ou de lado para o gol, o atleta representa menos perigo, facilitando assim a marcação do adversário.

            *Jogar sem bola: fundamental para o sucesso do ST: o atleta que tem a bola deve ter o maior número de opções de jogadas, para assim tomar a melhor decisão e também dificultar a marcação adversária. Para que isso seja possível, todos os atletas sem bola devem se movimentar e se posicionar em condições de receber a bola, dando opções e também abrindo espaços. É importante que o espaço entre os jogadores mais ofensivos seja relativamente grande, o que aumenta a área operacional para o jogador que tem a bola (permite infiltrações e aproveitamento de espaços vazios).
           
            *Ler a defesa e jogar com ela: detalhe importante para o jogar com ela ao invés de contra ela, ou seja, os atacantes devem usar as ações defensivas realizadas pelo adversário como uma arma para suas próprias ações. Por exemplo: se o marcador mais alto está marcando o centroavante e pronto para cortar cruzamentos, o centroavante pode sair da área para receber a bola ou abrir espaço para a infiltração de outro atacante. Qualquer que seja a ação, os atletas devem estar atentos às ações e movimentações não só de seus companheiros como também de seus adversários, podendo com isso escolher a ação que melhor funciona contra aquele adversário naquele momento.
           
            *Criatividade e intuição: dei-me a liberdade de colocar este princípio em último, pois ao meu entender, ele engloba de certa forma todos os outros citados anteriormente. Reparem que nenhum princípio propõe ações pré-determinadas; muito pelo contrário, sugere que todos os atletas da equipe estejam sempre atentos ao que acontece ao seu redor (companheiros, adversários, bola, espaços) para, utilizando-se da criatividade e da intuição, tomar a melhor decisão. Importantíssimo diferenciar criatividade e intuição de improviso (“jeitinho”). O objetivo maior é estruturar e potencializar a utilização da criatividade do atleta em prol do time, sem prendê-lo demais e também sem deixá-lo fazer o que bem entender.

            Para que a execução do ST seja bem-feita, é necessária a participação efetiva de todos os atletas em campo, ou seja, todos devem entender os princípios que norteiam o ST e estarem dispostos a sacrificar o individual pelo coletivo, além de ter pleno domínio dos fundamentos técnicos.
            O ST é chamado também de ataque dos três pivôs, pois a idéia é que todos os atletas componentes do triângulo ofensivo passem em algum momento pela posição do pivô (troca constante de posição, variabilidade de opções e ações ofensivas).
            O grande problema do ST é que, por ser algo diferente, enfrentaria grande resistência por parte dos atletas e de dirigentes despreparados, mais preocupados com resultados imediatos que com o desenvolvimento a longo prazo. Cabe ao treinador convencer sobre a efetividade dessa metodologia, e cabe principalmente aos clubes profissionalizar sua gestão. Infelizmente estamos léguas atrás de europeus e até mesmo de alguns “hermanos” do ponto de vista da gestão dos clubes.
         Gostaria de agradecer ao Prof. Dr. Alexandre Moreira (professor de Basquete na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo) por gentilmente me fornecer o material base deste post.

Fonte: Marcel de Souza (técnico de Basquete)- Comentários Sobre o Sistema de Triângulos.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O Futsal na Formação do Jogador de Futebol

      É comum vermos o surgimento de grandes jogadores de futebol que antes passaram pelo futsal. Normalmente jogadores habilidosos, como Robinho, Neymar e Ronaldo, entre outros, cujos dribles curtos são creditados a esse passado.
Ronaldo, Neymar e Robinho tiveram passagem no futsal na sua formação.


          Por ser uma modalidade de quadra, com espaço reduzido (800 metros quadrados em média, contra 7000 do campo, um pouco mais de 10%) e menos de metade dos atletas no jogo (10 contra 22), a participação efetiva de cada atleta se dá a todo o momento do jogo, com ou sem bola, o que gera diversos ganhos que podem ser aproveitados na prática do futebol de campo:

- Atenção no jogo inteiro. Sempre se apresentar pra receber a bola, e ajudar na marcação assim que a bola for perdida. Não há espaço de tempo para o descanso ou o lamento.

- Formação do jogador completo: como ele sempre participa de todas as ações, tanto defensivas quanto ofensivas da equipe, ele deve ter domínio de todos os fundamentos. Não é possível colocar alguém atrás só rebatendo bola ou na frente só pra fazer o gol.

- Raciocínio rápido. O jogo é mais corrido, sendo a distância entre os gols e entre os atletas bem menor, logo, não dá tempo de dominar, levantar a cabeça e ficar pensando no que fazer sem ser acossado por um marcador, por exemplo.

- “Se virar” em espaços pequenos. Saber usar o corpo, pensar rápido, dar dribles curtos.

            Essas são algumas das vantagens que o atleta pode tirar da vivência no futsal, porém é importante ressaltar que o futsal e o futebol são duas modalidades diferentes, e, portanto um bom desempenho no futsal não garante um bom desempenho no futebol. Dentre as diferenças temos: tamanho e peso da bola, tempo de bola, fundamentos técnicos (domínio, passe, chute, lançamentos), espaço de jogo e a demanda fisiológica. Falcão é o maior exemplo de atleta exemplar no futsal que não deu certo no futebol.


Falcão é o maior exemplo de atleta bem sucedido no futsal que não deu certo no futebol.

             Para que o jogador possa se dar bem no futebol e aproveitar as vantagens do futsal citadas acima, o ideal é que ele tenha vivência nas duas modalidades. Inclusive, uma metodologia de treino que é hoje bastante difundida, principalmente na Europa, é o treino em espaço reduzido, que tem justamente a proposta de gerar os ganhos citados acima.


sábado, 5 de maio de 2012

Jogar Sem Centroavante

            Praticamente todas as equipes do mundo hoje jogam com um centroavante, aquele homem de referência que fica posicionado perto do gol e tem como função principal (quando não única) empurrar a bola para as redes. O seu posicionamento mais fixo e a pouca mobilidade pelo campo, porém, muitas vezes faz do centroavante uma referência para os zagueiros, tornando-o fácil de ser marcado, e as jogadas previsíveis.
            Uma idéia interessante, porém pouquíssimo utilizada seria escalar um time sem o tal do 9. Os atletas poderiam, mais de um da equipe, projetar-se para o meio da área dependendo da dinâmica do jogo. Isso torna o time mais imprevisível e difícil de ser marcado. Porém, para que isso seja possível, é necessário entrosamento, entendimento da proposta e leitura de jogo por parte dos atletas. E é aí que entro na mesma tecla que sempre bato: é fundamental, para que tal estratégia seja eficaz, que os atletas consigam pensar o jogo e perceber as situações, a fim de ocupar os espaços vazios e se projetar no lugar certo no momento ideal.
            Para exemplificar o dito acima, algumas imagens de jogos de duas equipes que são talvez as mais dinâmicas do futebol hoje: o Barcelona e o Manchester City. 
             No caso do Barcelona, Messi atua como “falso 9”: teoricamente o centroavante do time, porém ele costuma abrir pelos lados ou recuar para participar do jogo na intermediária abrindo espaço para infiltrações (ás vezes dele mesmo) pela diagonal ou pelo meio.

Reparem como não há ninguém na "referência" (círculo amarelo), e a infiltração é feita pela diagonal, aproveitando o espaço nas costas da defesa adversária (em azul).

Nesse caso, Messi se projeta para o meio da área como um autêntico centroavante, atraindo a marcação e abrindo espaço nas suas costas para a chegada do meia (espaço em amarelo).

Em muitos momentos da partida, Messi (círculo amarelo) recua, abrindo espaço para a infiltração dos meias (no caso, Fábregas- círculo azul)

Novamente não há nenhum jogador na referência. Enquanto os dois zagueiros centrais não marcam ninguém, Messi (círculo amarelo) se projeta diagonalmente a partir da ponta esquerda pelas costas dos zagueiros centrais.

Quinta situação diferente no mesmo jogo: Messi carrega a bola a partir da intermediária como um meia (amarelo), três zagueiros ocupando uma zona sem atacantes (círculo amarelo maior) e dois atletas (no caso, Daniel Alves e Thiago) se comportam como atacantes pelas laterais se projetando diagonalmente.

            No caso do Manchester City, muitas vezes Roberto Mancini utiliza-se de dois atacantes, porém sem a divisão tradicional entre segundo atacante e centroavante. Ambos executam as duas funções, tudo de acordo com as situações do jogo.
Nessa figura, o posicionamento dos dois atacantes do Manchester City, aproximadamente na mesma distância do centro do gol. Reparem que a jogada transcorre pela esquerda e o que acontece na sequência.

Na continuação da jogada: Balotelli (círculo azul) recua, abrindo espaço para a infiltração em diagonal de Aguero e também dando opção de passe para trás.

Nessa jogada, Balotelli (círculo amarelo) e Aguero (círculo azul) estavam em lados invertidos em relação à vista acima. Reparem como Balotelli  se projeta no espaço vazio para receber a bola na região normalmente ocupada pelo centroavante, enquanto Aguero mantém-se no seu lado.

Na sequência da jogada há uma inversão de funções: Balotelli recua, criando espaço para a infiltração diagonal de Aguero, que agora se comporta como centroavante.


            Como sempre, vale ressaltar que as propostas feitas aqui não são regras, nem soluções de todos os problemas. O próprio Barcelona sentiu falta na eliminação da UCL de um centroavante que fizesse parede para as infiltrações ou disputasse bolas pelo alto, já que os passes e ultrapassagens não estavam sendo efetivos para furar a retranca imposta pelo Chelsea.
            A idéia principal da proposta é mostrar como uma equipe não precisa virar refém do centroavante, sendo possível trabalhar alternativas que podem ser altamente efetivas. Acredito, inclusive, que quanto maior a dinâmica da equipe, se bem trabalhada e bem assimilada, traz como principal benefício o fator surpresa, dificultando as ações do sistema defensivo adversário.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Uma maneira diferente de ordenar os volantes

             Os esquemas táticos das principais equipes do mundo são muito parecidos entre si, obedecendo algumas “normas” ditas como absolutas. Quando isso acontece, é sempre importante nos atentar a alguma proposta que fuja um pouco do normal.
              Quase todas as equipes atuam com dois ou três volantes, sendo o primeiro volante (o que atua mais próximo da linha defensiva) aquele mais marcador, que tem como principais qualidades as capacidades e fundamentos defensivos; enquanto o segundo volante (que tem maior liberdade para se aproximar ou até ultrapassar os meias) é aquele com maiores qualidades ofensivas. Outras equipes jogam com dois volantes de qualidades defensivas e ofensivas equilibradas em linha.
           O Milan campeão da Liga dos Campeões da Europa 2006/07 tinha uma proposta um pouco diferente: em todos os jogos a partir da fase eliminatória atuou com três volantes, sendo o primeiro (Pirlo) um jogador mais técnico, com boa qualidade no passe; e um pouco à frente dele dois atletas (Gattuso e Ambrosini) mais reconhecidos pela qualidade na marcação que com a bola no pé. A seqüência de imagens abaixo evidencia como Pirlo se postava atrás dos outros dois volantes quando o time não tinha a bola. Ao recuperá-la, a equipe imediatamente procurava Pirlo, que, com sua visão de jogo e qualidade no passe longo, ligava a transição rápida principalmente com Kaka.
              Assim que a bola progredia em direção ao ataque, Pirlo ultrapassava a linha dos outros volantes, sendo assim sempre mais participativo nas ações ofensivas. O time ganhava em qualidade técnica em qualquer parte do campo em que estivesse com a bola.
Pirlo participa da marcação como primeiro volante. 
Reparem como Pirlo posta-se atrás ou á frente dos outros volantes de acordo com a posição da bola quando a equipe tem a posse.
A equipe procura Pirlo imediatamente no momento em que rouba a bola.
           A equipe atual do Juventus (até o momento invicta no Cálcio), também conta com Pirlo como primeiro volante. A postura da equipe é outra (mais ofensiva) e o sistema tático é diferente (varia entre 3-5-2 e 4-3-3), porém Pirlo continua atuando de maneira semelhante á do Milan de 2006/07, executando as mesmas funções. 
Pirlo participando da marcação como primeiro volante no Juventus atual.
Pirlo participando das ações ofensivas no Juventus atual.


Assim como fazia no Milan, Pirlo é o principal responsável pela saída de bola.


              A grande vantagem dessa postura é que, com um primeiro volante técnico, a saída de bola da equipe é mais qualificada, aumentando assim sua eficiência. A qualidade dos lançamentos de Pirlo consagrou na temporada as arrancadas de Kaka na transição rápida, que se tornou o artilheiro da UCL 2006/07 com 10 gols marcados.
               Quando colocamos um atleta mais marcador mais próximo da defesa, a transição defesa-ataque torna-se ou mais lenta devido ao fato de o primeiro volante procurar o passe curto ou menos eficiente se o atleta não tiver uma boa qualidade em seus lançamentos.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Conceitos Defensivos: Algumas Considerações Práticas

          No último post os conceitos defensivos da marcação por zona foram abordados de forma puramente teórica. Foi uma introdução para defender algumas considerações que tenho sobre a organização do sistema defensivo de times brasileiros.
          No Palmeiras, discute-se se Daniel Carvalho e Valdivia podem jogar juntos. Scolari prefere jogar com apenas um meia “armador” e escalar ao seu lado um meia “tático” (aquele que não tem grande proficiência técnica porém se esforça e cumpre as determinações do treinador, ajudando os volantes na marcação quando o time está sem bola), já que, para ele, o time fica vulnerável com os dois juntos.

      No Vasco, Juninho e Felipe raramente jogam desde o começo juntos, e quando isso acontece, normalmente é com dois volantes atrás deles. Como são dois meias articuladores, o time sente falta de um ponta de lança, aquele meia que entra na área e chega para finalizar. Vale lembrar que Felipe atuou em grande parte da carreira como lateral (atleta com funções defensivas) e que Juninho fez história no Lyon atuando como segundo volante.

Assim como Juninho, Renato do Botafogo teve seu auge atuando como segundo volante. Atualmente tem jogado nessa posição, porém em muitas partidas ele é adiantado para jogar como meia e mais um volante é colocado em campo.
Nos três casos acima, temos em comum a opção dos técnicos em valorizar a segurança defensiva em detrimento de uma maior vocação ofensiva da equipe.
Sou adepto da idéia de que os melhores devem entrar em campo. Para mim é possível Valdivia e Daniel Carvalho jogarem juntos com “apenas” dois volantes em campo; Juninho e Felipe jogarem juntos, com mais um volante e um meia em campo; e Renato jogar de segundo volante.
Como descrito no post anterior, na marcação por zona há uma divisão equilibrada de espaços e funções, em que cada atleta fica responsável por uma parte, evitando assim o desgaste excessivo de um ou de outro. Não há necessidade do meia acompanhar o volante adversário até dentro da própria área ou sair dando carrinhos e roubando bolas. Cabe ao técnico mostrar a importância do papel de cada um dentro de campo tanto com quanto sem a bola. Um sistema defensivo bem montado pode dar segurança à equipe mesmo sem plantar dois “leões de chácara” na frente da defesa.
No próprio futebol brasileiro temos um exemplo prático de como é possível ter uma defesa consistente mesmo escalando vários atletas com vocação ofensiva: o Corinthians campeão brasileiro de 2011 com a defesa menos vazada da competição (36 gols sofridos). Rápida análise da equipe: um goleiro razoável para bom; dois laterais que marcam, mas que também apóiam o ataque; dois zagueiros bons, porém nenhum “monstro”; dois volantes que estão longe de ser “açougueiros”, Ralf um primeiro volante com qualidade no passe e Paulinho, que aparece bastante no ataque; dois meias e dois atacantes, ou um meia e três atacantes.

A partir dessa rápida análise, podemos perceber que não há nenhuma característica individual que justifique tamanha consistência defensiva. O que acontece é que Tite (um treinador ao meu ver menos valorizado que o merecido) montou um sistema defensivo baseado justamente na cooperação coletiva: sem a bola, todos ajudam na marcação, cada um cumprindo sua função. Tudo isso sem grandes perdas na vocação ofensiva: foi o time com mais vitórias na competição (21) e teve o oitavo melhor ataque (para efeito de comparação: o Palmeiras, com a segunda melhor defesa, conquistou 17 empates- recorde, 11 vitórias e teve o segundo pior ataque, terminando a competição na décima - primeira colocação).
Outro aspecto vigente no futebol do Corinthians que também pode ser considerado de grande importância no sentido de a equipe levar poucos gols: a valorização da posse de bola. A explicação é simples: time que tem a bola não é atacado, logo, não leva gol. Quando um técnico deixa de escalar um atleta de vocação defensiva para escalar um de maior qualidade técnica, aumentam a chance de o time ter maior posse de bola e, com isso, diminui o risco de tomar gol.
Lógico que devemos levar em consideração a dinâmica do futebol, as características do adversário, o calendário de jogos, o estado físico de cada atleta (Valdivia e Daniel Carvalho se lesionam com facilidade e Juninho e Felipe estão em idade avançada, por exemplo), mas com bom planejamento e boa preparação acredito que é perfeitamente possível as escalações como sugerido acima principalmente em partidas importantes.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Conceitos Defensivos: Aspectos Teóricos

        Tenho observado algumas situações quanto ao comportamento defensivo de algumas equipes brasileiras com as quais não concordo. Antes de discutir isso, gostaria de definir aqui alguns conceitos defensivos baseados na marcação por zona.
            O princípio básico que norteia a marcação por zona está na distribuição equilibrada e eqüidistante de espaços ocupados por todos os atletas. Com isso, há uma divisão de funções entre os atletas, sem sobrecarregar ninguém e gerando menor desgaste. Além disso, as linhas devem jogar próximas entre si, o que deixa o time compactado e assim dificulta as ações do adversário diminuindo seu espaço.
            Cumprindo esse princípio, a equipe tem grandes chances de conseguir seus três objetivos principais: não tomar gol, evitar a progressão do adversário e roubar a bola. Mas para que isso ocorra, é necessário que todos os atletas da equipe cumpram sua função, executando algumas ações individuais:
           
-Temporização: na marcação 1x1, o principal objetivo do marcador é evitar ser driblado, o que gera um desequilíbrio em todo o sistema defensivo. O atleta deve marcar a uma distância que dificulte o drible e em uma posição que impeça o passe vertical, assim ele atrasa a ação do adversário, obrigando-o a tocar a bola para o lado ou para trás. A temporização também é muito utilizada a fim de evitar o contra-ataque, dando tempo para a equipe se organizar defensivamente.
           
- Balanço defensivo: colocar sempre mais atletas no lado do campo em que a bola está. Exemplo: se a bola está no lado esquerdo da defesa, todos se aproximam mais deste lado do campo, deixando a lateral direita aberta. Em caso de virada de jogo, o balanço deve ser feito rapidamente com o intuito de diminuir os espaços do adversário.
           
- Antecipação: para que a antecipação seja possível, o defensor deve ter leitura de jogo, ou seja, a partir de pistas gestuais oferecidas pelo adversário, perceber o que ele vai fazer e se antecipar ao lance. Com a antecipação, o defensor pode roubar a bola, cortar um passe ou simplesmente impedir o atacante de fazer o que desejava.
           
- Cobertura/troca: quando um atleta é batido, um companheiro da mesma linha ou da linha posterior deve imediatamente fazer a cobertura, realizando o combate sobre o atacante, impedindo-o de ter tempo de pensar o jogo. O atleta batido deve procurar imediatamente ocupar o espaço daquele que fez sua cobertura, mantendo o equilíbrio defensivo da equipe.
           
- Vigilância: o defensor deve ter sempre em vista a bola e os adversários que podem entrar em sua zona de marcação. Quando mais perto do gol, mais de perto deve ser feita essa vigilância.
           
- Marcar a perna boa: priorizar na marcação a perna boa do adversário que está com a bola, dando mais espaço pra ele cortar para a perna ruim. O motivo é óbvio: com a perna ruim, a chance de o adversário acertar um bom passe ou um bom chute é menor.
           
- Posicionar-se entre a bola e o gol: sempre. Quando o adversário está de frente, manter-se de costas para o gol, quando o adversário está na lateral, fechar mais o meio, deixando a lateral mais “livre”.
           
- O atleta que está com a bola SEMPRE deve estar marcado. Além dele, os defensores mais próximos devem fechar as opções de passe imediatas, dificultando assim ao máximo a ação do atleta que está com a bola, restando-lhe as opções de tocar para trás (menor risco) ou efetuar lançamentos (maior chance de erro).

Para que a marcação seja bem executada, é necessário que todos os atletas do time cumpram seus espaços e estejam sempre ligados no jogo e prestando atenção na movimentação da bola, dos adversários e de seus companheiros para tomar suas decisões. A capacidade de pensar o jogo não está inserida apenas nas ações ofensivas, sendo fundamental também nas ações defensivas. Por isso, volto a bater na tecla do primeiro post: é de grande valia ter jogadores que saibam ler e pensar o jogo.