O blog Conceitos Táticos, como o próprio nome entrega, visa abordar os conceitos táticos no mundo do futebol. Meu objetivo é analisar, provocar, fazer pensar, discutir e tirar dúvidas sobre o assunto. Estou sempre aberto a opiniões, sugestões, críticas, perguntas, discordâncias e etc.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Uma maneira diferente de ordenar os volantes

             Os esquemas táticos das principais equipes do mundo são muito parecidos entre si, obedecendo algumas “normas” ditas como absolutas. Quando isso acontece, é sempre importante nos atentar a alguma proposta que fuja um pouco do normal.
              Quase todas as equipes atuam com dois ou três volantes, sendo o primeiro volante (o que atua mais próximo da linha defensiva) aquele mais marcador, que tem como principais qualidades as capacidades e fundamentos defensivos; enquanto o segundo volante (que tem maior liberdade para se aproximar ou até ultrapassar os meias) é aquele com maiores qualidades ofensivas. Outras equipes jogam com dois volantes de qualidades defensivas e ofensivas equilibradas em linha.
           O Milan campeão da Liga dos Campeões da Europa 2006/07 tinha uma proposta um pouco diferente: em todos os jogos a partir da fase eliminatória atuou com três volantes, sendo o primeiro (Pirlo) um jogador mais técnico, com boa qualidade no passe; e um pouco à frente dele dois atletas (Gattuso e Ambrosini) mais reconhecidos pela qualidade na marcação que com a bola no pé. A seqüência de imagens abaixo evidencia como Pirlo se postava atrás dos outros dois volantes quando o time não tinha a bola. Ao recuperá-la, a equipe imediatamente procurava Pirlo, que, com sua visão de jogo e qualidade no passe longo, ligava a transição rápida principalmente com Kaka.
              Assim que a bola progredia em direção ao ataque, Pirlo ultrapassava a linha dos outros volantes, sendo assim sempre mais participativo nas ações ofensivas. O time ganhava em qualidade técnica em qualquer parte do campo em que estivesse com a bola.
Pirlo participa da marcação como primeiro volante. 
Reparem como Pirlo posta-se atrás ou á frente dos outros volantes de acordo com a posição da bola quando a equipe tem a posse.
A equipe procura Pirlo imediatamente no momento em que rouba a bola.
           A equipe atual do Juventus (até o momento invicta no Cálcio), também conta com Pirlo como primeiro volante. A postura da equipe é outra (mais ofensiva) e o sistema tático é diferente (varia entre 3-5-2 e 4-3-3), porém Pirlo continua atuando de maneira semelhante á do Milan de 2006/07, executando as mesmas funções. 
Pirlo participando da marcação como primeiro volante no Juventus atual.
Pirlo participando das ações ofensivas no Juventus atual.


Assim como fazia no Milan, Pirlo é o principal responsável pela saída de bola.


              A grande vantagem dessa postura é que, com um primeiro volante técnico, a saída de bola da equipe é mais qualificada, aumentando assim sua eficiência. A qualidade dos lançamentos de Pirlo consagrou na temporada as arrancadas de Kaka na transição rápida, que se tornou o artilheiro da UCL 2006/07 com 10 gols marcados.
               Quando colocamos um atleta mais marcador mais próximo da defesa, a transição defesa-ataque torna-se ou mais lenta devido ao fato de o primeiro volante procurar o passe curto ou menos eficiente se o atleta não tiver uma boa qualidade em seus lançamentos.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Conceitos Defensivos: Algumas Considerações Práticas

          No último post os conceitos defensivos da marcação por zona foram abordados de forma puramente teórica. Foi uma introdução para defender algumas considerações que tenho sobre a organização do sistema defensivo de times brasileiros.
          No Palmeiras, discute-se se Daniel Carvalho e Valdivia podem jogar juntos. Scolari prefere jogar com apenas um meia “armador” e escalar ao seu lado um meia “tático” (aquele que não tem grande proficiência técnica porém se esforça e cumpre as determinações do treinador, ajudando os volantes na marcação quando o time está sem bola), já que, para ele, o time fica vulnerável com os dois juntos.

      No Vasco, Juninho e Felipe raramente jogam desde o começo juntos, e quando isso acontece, normalmente é com dois volantes atrás deles. Como são dois meias articuladores, o time sente falta de um ponta de lança, aquele meia que entra na área e chega para finalizar. Vale lembrar que Felipe atuou em grande parte da carreira como lateral (atleta com funções defensivas) e que Juninho fez história no Lyon atuando como segundo volante.

Assim como Juninho, Renato do Botafogo teve seu auge atuando como segundo volante. Atualmente tem jogado nessa posição, porém em muitas partidas ele é adiantado para jogar como meia e mais um volante é colocado em campo.
Nos três casos acima, temos em comum a opção dos técnicos em valorizar a segurança defensiva em detrimento de uma maior vocação ofensiva da equipe.
Sou adepto da idéia de que os melhores devem entrar em campo. Para mim é possível Valdivia e Daniel Carvalho jogarem juntos com “apenas” dois volantes em campo; Juninho e Felipe jogarem juntos, com mais um volante e um meia em campo; e Renato jogar de segundo volante.
Como descrito no post anterior, na marcação por zona há uma divisão equilibrada de espaços e funções, em que cada atleta fica responsável por uma parte, evitando assim o desgaste excessivo de um ou de outro. Não há necessidade do meia acompanhar o volante adversário até dentro da própria área ou sair dando carrinhos e roubando bolas. Cabe ao técnico mostrar a importância do papel de cada um dentro de campo tanto com quanto sem a bola. Um sistema defensivo bem montado pode dar segurança à equipe mesmo sem plantar dois “leões de chácara” na frente da defesa.
No próprio futebol brasileiro temos um exemplo prático de como é possível ter uma defesa consistente mesmo escalando vários atletas com vocação ofensiva: o Corinthians campeão brasileiro de 2011 com a defesa menos vazada da competição (36 gols sofridos). Rápida análise da equipe: um goleiro razoável para bom; dois laterais que marcam, mas que também apóiam o ataque; dois zagueiros bons, porém nenhum “monstro”; dois volantes que estão longe de ser “açougueiros”, Ralf um primeiro volante com qualidade no passe e Paulinho, que aparece bastante no ataque; dois meias e dois atacantes, ou um meia e três atacantes.

A partir dessa rápida análise, podemos perceber que não há nenhuma característica individual que justifique tamanha consistência defensiva. O que acontece é que Tite (um treinador ao meu ver menos valorizado que o merecido) montou um sistema defensivo baseado justamente na cooperação coletiva: sem a bola, todos ajudam na marcação, cada um cumprindo sua função. Tudo isso sem grandes perdas na vocação ofensiva: foi o time com mais vitórias na competição (21) e teve o oitavo melhor ataque (para efeito de comparação: o Palmeiras, com a segunda melhor defesa, conquistou 17 empates- recorde, 11 vitórias e teve o segundo pior ataque, terminando a competição na décima - primeira colocação).
Outro aspecto vigente no futebol do Corinthians que também pode ser considerado de grande importância no sentido de a equipe levar poucos gols: a valorização da posse de bola. A explicação é simples: time que tem a bola não é atacado, logo, não leva gol. Quando um técnico deixa de escalar um atleta de vocação defensiva para escalar um de maior qualidade técnica, aumentam a chance de o time ter maior posse de bola e, com isso, diminui o risco de tomar gol.
Lógico que devemos levar em consideração a dinâmica do futebol, as características do adversário, o calendário de jogos, o estado físico de cada atleta (Valdivia e Daniel Carvalho se lesionam com facilidade e Juninho e Felipe estão em idade avançada, por exemplo), mas com bom planejamento e boa preparação acredito que é perfeitamente possível as escalações como sugerido acima principalmente em partidas importantes.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Conceitos Defensivos: Aspectos Teóricos

        Tenho observado algumas situações quanto ao comportamento defensivo de algumas equipes brasileiras com as quais não concordo. Antes de discutir isso, gostaria de definir aqui alguns conceitos defensivos baseados na marcação por zona.
            O princípio básico que norteia a marcação por zona está na distribuição equilibrada e eqüidistante de espaços ocupados por todos os atletas. Com isso, há uma divisão de funções entre os atletas, sem sobrecarregar ninguém e gerando menor desgaste. Além disso, as linhas devem jogar próximas entre si, o que deixa o time compactado e assim dificulta as ações do adversário diminuindo seu espaço.
            Cumprindo esse princípio, a equipe tem grandes chances de conseguir seus três objetivos principais: não tomar gol, evitar a progressão do adversário e roubar a bola. Mas para que isso ocorra, é necessário que todos os atletas da equipe cumpram sua função, executando algumas ações individuais:
           
-Temporização: na marcação 1x1, o principal objetivo do marcador é evitar ser driblado, o que gera um desequilíbrio em todo o sistema defensivo. O atleta deve marcar a uma distância que dificulte o drible e em uma posição que impeça o passe vertical, assim ele atrasa a ação do adversário, obrigando-o a tocar a bola para o lado ou para trás. A temporização também é muito utilizada a fim de evitar o contra-ataque, dando tempo para a equipe se organizar defensivamente.
           
- Balanço defensivo: colocar sempre mais atletas no lado do campo em que a bola está. Exemplo: se a bola está no lado esquerdo da defesa, todos se aproximam mais deste lado do campo, deixando a lateral direita aberta. Em caso de virada de jogo, o balanço deve ser feito rapidamente com o intuito de diminuir os espaços do adversário.
           
- Antecipação: para que a antecipação seja possível, o defensor deve ter leitura de jogo, ou seja, a partir de pistas gestuais oferecidas pelo adversário, perceber o que ele vai fazer e se antecipar ao lance. Com a antecipação, o defensor pode roubar a bola, cortar um passe ou simplesmente impedir o atacante de fazer o que desejava.
           
- Cobertura/troca: quando um atleta é batido, um companheiro da mesma linha ou da linha posterior deve imediatamente fazer a cobertura, realizando o combate sobre o atacante, impedindo-o de ter tempo de pensar o jogo. O atleta batido deve procurar imediatamente ocupar o espaço daquele que fez sua cobertura, mantendo o equilíbrio defensivo da equipe.
           
- Vigilância: o defensor deve ter sempre em vista a bola e os adversários que podem entrar em sua zona de marcação. Quando mais perto do gol, mais de perto deve ser feita essa vigilância.
           
- Marcar a perna boa: priorizar na marcação a perna boa do adversário que está com a bola, dando mais espaço pra ele cortar para a perna ruim. O motivo é óbvio: com a perna ruim, a chance de o adversário acertar um bom passe ou um bom chute é menor.
           
- Posicionar-se entre a bola e o gol: sempre. Quando o adversário está de frente, manter-se de costas para o gol, quando o adversário está na lateral, fechar mais o meio, deixando a lateral mais “livre”.
           
- O atleta que está com a bola SEMPRE deve estar marcado. Além dele, os defensores mais próximos devem fechar as opções de passe imediatas, dificultando assim ao máximo a ação do atleta que está com a bola, restando-lhe as opções de tocar para trás (menor risco) ou efetuar lançamentos (maior chance de erro).

Para que a marcação seja bem executada, é necessário que todos os atletas do time cumpram seus espaços e estejam sempre ligados no jogo e prestando atenção na movimentação da bola, dos adversários e de seus companheiros para tomar suas decisões. A capacidade de pensar o jogo não está inserida apenas nas ações ofensivas, sendo fundamental também nas ações defensivas. Por isso, volto a bater na tecla do primeiro post: é de grande valia ter jogadores que saibam ler e pensar o jogo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sobre o uso de três zagueiros

            É muito comum vermos treinadores sendo acusados de “retranqueiros” ao utilizarem o esquema com três zagueiros em detrimento do mais tradicional 4-4-2. Vendo isso, sempre me deparei com uma pergunta matemática simples: se três é menor que quatro, como um esquema com 3 zagueiros é mais defensivo que um com 4?
            Para começar, vamos ver uma equipe que utiliza o 3-4-3 bem definido: a seleção chilena de Marcelo Bielsa nas eliminatórias e na Copa de 2010. Era uma seleção de muitos recursos ofensivos, porém fraca defensivamente. Jogava sempre no ataque, fazendo com que o time fizesse e levasse muitos gols. Reparem na seqüência de imagens como a linha defensiva é bem definida, composta por três atletas, mesmo quando atacada. O ala só aparece em uma foto, e mesmo assim à frente da linha defensiva, compondo a zona do meio de campo.



            
         Para efeito de comparação, observem essas duas imagens do comportamento defensivo do Tottenham, uma equipe inglesa que utiliza o sistema tradicional do país, com quatro atletas em sua linha defensiva. Reparem como nesse caso a postura da equipe é mais conservadora se comparada à da seleção chilena.

          Se isso ocorre, por quê é tão comum no Brasil dizer que o sistema com três zagueiros é mais defensiva que aquele com quatro? Vejam aqui na seqüência de imagens a postura defensiva do Bragantino (equipe que aposta na solidez defensiva e no contra-ataque/transição rápida) contra o trio de ferro paulista em 2012. Na mídia a escalação é sempre anunciada no 3-5-2, mas reparem como os laterais voltam e compõem a linha defensiva, atuando ao lado dos zagueiros. Podemos dizer que o sistema na verdade está mais para 5-3-2, o que explicaria a associação do uso de “três” (na verdade cinco) defensores ao esquema defensivo.


           Vale ressaltar que, independentemente dos números e das terminologias utilizadas, o que realmente faz uma equipe ser mais ofensiva ou defensiva são as situações de jogo, as característica do adversário e, principalmente, a postura da equipe em campo.
           
PS: Por uma questão de terminologia, para facilitar a identificação das funções e do posicionamento, considerei o jogador que atua pelo lado e compõe a linha defensiva como “lateral” e o que atua pelo lado e compõe a linha do meio de campo como “ala”.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Aproximações, é tão complicado?

           Para estrear o blog resolvi abordar o tema aproximações. O conceito é básico: quando um atleta tem a bola, seus companheiros de equipe se aproximam, oferecendo uma opção de passe. Se isso for sempre bem executado, o time se beneficia com a manutenção da posse de bola. Simples, certo? Nem tanto.
            O maior modelo que temos hoje é o Barcelona. Eles jogam um futebol “de outro planeta”, com muitos passes, aproximações, trocas de posiçõs e paciência com a bola. O tal do “tiki taka”. Para entender melhor, uma seqüência de imagens abaixo que ilustra um pouco do que eles fazem: quase sempre o indivíduo que tem a bola tem duas opções imediatas de passe, formando assim um triângulo. Reparem como as opções são oferecidas em qualquer parte do campo e como, mesmo pressionados, eles se apresentam pro jogo e continuam trocando passes curtos, sem rifar a bola.






        Agora, reparem nessa seqüência de imagens a dificuldade que os times brasileiros têm de realizar aproximações. Eles apostam no jogo mais verticalizado, em direção ao gol.

Cortez isolado com a bola: Casemiro recuando pra fazer a cobertura e os outros dois circulados indo em direção a área: a única opção do Cortez é partir para a jogada individual e tentar o cruzamento: deu errado. 


Luan totalmente sozinho após uma inversão de jogo. A única opção era partir para a jogada individual. Deu errado.

Juninho com a bola pela esquerda: companheiros distantes e escondidos atrás da marcação.

Neymar marcado por dois e companheiros escondidos atrás da marcação. Perdeu a bola.

                Aí fica a pergunta: é tão difícil assim aplicar esses conceitos nos times?
            Para que essas aproximações sejam sempre bem realizadas, é necessário que os atletas tenham leitura de jogo e saibam a cada momento onde se posicionar a para onde correr. Para isso, eles precisam estar sempre concentrados e prestando atenção no que acontece ao seu redor (movimentação da bola, dos companheiros, dos adversários) e localizar espaços vazios.
É muito mais fácil para o técnico ter jogadores obedientes taticamente que fazem o que ele determina que criar jogadores inteligentes que saibam pensar o jogo. Isso começa nas categorias de base e passa pelo profissional. Enquanto tivermos essa produção em série de jogadores fortes e rápidos, porém sem leitura tática, será difícil aplicarmos esse conceito e a busca incessante por um “camisa 10 clássico” continuará a fio por anos.
E aí? Que tal incentivarmos os jogadores a pensar?