O blog Conceitos Táticos, como o próprio nome entrega, visa abordar os conceitos táticos no mundo do futebol. Meu objetivo é analisar, provocar, fazer pensar, discutir e tirar dúvidas sobre o assunto. Estou sempre aberto a opiniões, sugestões, críticas, perguntas, discordâncias e etc.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Prévia dos 4 principais duelos das Oitavas da UCL

        A UCL chega em sua fase decisiva com muitos jogos interessantes. Vou aqui fazer uma prévia de como podem ser taticamente os quatro principais duelos das oitavas: Barcelona X Milan, Real Madrid X Manchester United, Borusia Dortmund X Shaktar Donetsk e Valência X PSG.

        O Barcelona é favorito ante o Milan, mas vale lembrar que na última temporada eles se enfrentaram quatro vezes e, apesar de duas vitórias da equipe catalã e dois empates, foram embates duríssimos. Além disso, o Milan conta com um time melhor que o da última temporada, principalmente com o mais recente reforço: Balotelli.

Milan X Barcelona: promessa de duelos difíceis.
        O Milan deve apostar em um 4-3-3 compacto e forte defensivamente e transições rápidas procurando a velocidade do jovem e renovado trio de ataque nas costas da defesa da equipe catalã, que joga bastante adiantada. No banco, Bojan é opção para renovar o gás ofensivo, e Robinho para cadenciar o jogo.
        O Barcelona não altera sua proposta de jogo: posse de bola, extensa troca de passes e chegada ao gol adversário pelo chão. Muitas ultrapassagens nas duas laterais, na direita Pedro (ou Villa) mais incisivo, na esquerda Fábregas e Iniesta trocando de posição e Messi mais perto do gol, em fase cada vez mais artilheira.        
O desenho tático é o mesmo, mas a filosofia e a proposta de jogo bastante diferentes: Milan mais compacto defensivamente e apostando na transição ofensiva veloz com o jovem trio de ataque. Barcelona apostando na posse de bola, transição pelo chão e fase artilheira de Messi.

        Outro duelo de gigantes opõe Real Madrid e Manchester United, em fases opostas. Enquanto o United, do eterno Sir Alex Ferguson, lidera com folga o campeonato Inglês e conta com o elenco mais forte dos últimos anos, além da boa fase de Rooney e Van Persie, o Real Madrid enfrenta uma grande crise entre o técnico Jose Mourinho e seus atletas, longe do título do campeonato espanhol, má fase de alguns jogadores (como Di Maria e Marcelo) e a lesão de seu líder: o goleiro Casillas.
        
O Real Madrid deverá superar o clima ruim se quiser superar o United, que conta com Rooney e Van Persie em boa fase.

        Como de praxe em jogos importantes, Fergunson deve apostar em uma proposta um pouco mais cautelosa que em jogos pela liga inglesa, mas sem mudar peças ou o desenho tático. Deve atuar em um 4-4-1-1 que muitas vezes pode se formar em um 4-5-1 com Rooney recuando para combater no meio. As jogadas ofensivas acontecem principalmente pelas laterais, com combinações entre o “winger” (meia pelo lado) e o lateral. Rooney atua com liberdade pelo campo, armando e chegando para finalizar, e Van Persie é a referência com excelente faro de gol. Não se pode descartar também a escalação dos experientes Paul Scholes e Ryan Giggs como titulares.                  
             Já o Real deve ficar mais com a bola e pressionar o United. A proposta de jogo é bastante vertical, chegando ao gol com poucas trocas de passe. O desenho é o 4-2-3-1, com a dupla de volantes mais Ozil (o meia central) com boa qualidade no passe e boa chegada na frente. Os meias pelo lado atuam com pé invertido, o que possibilita infiltrações na diagonal. Ronaldo é mais atacante, enquanto Di Maria ajuda a recompor o meio de campo. Não será surpresa a escalação de Essien no lugar de Khedira (ou até mesmo de Di Maria) para vigiar Rooney.
        Ambos os times contam com boas opções no banco para reverter uma situação desfavorável: enquanto o United tem Kagawa, Nani e os dois atletas experientes citados acima, Real tem Marcelo, Modric e Higuain. Promessa de bons jogos, com ligeiro favoritismo para o United levando-se em conta a fase que atravessam os dois times.

Real no 4-2-3-1 bastante vertical deve pressionar o United, que não liga de jogar sem bola e deve apostar em transições ofensivas pelas laterais. Rooney com liberdade para ajudar na armação, marcação e ainda chegar na área para finalizar. 

        Borusia Dortmund e Shaktar Donestk protagonizam o que para mim será o duelo mais interessante e aberto das oitavas de final. Duas equipes com o mesmo desenho tático (4-2-3-1) e proposta de jogo parecida, com transição ofensiva rápida e incursões diagonais dos meias pelos lados.

Borusia: maior tradição e boa fase podem pesar contra o Shaktar, que, sem Willian, deposita suas esperanças nos gols de Mkhitaryan.
        Ambas as equipes contam com uma dupla de volantes com um mais marcador (Kehl e Hubschman) e outro com mais liberdade para encostar nos meias (Gundogan e Fernandinho). O trio de meias promove intensa movimentação e troca de posição em torno do centroavante, com a diferença de que enquanto no Borusia o meia central (Gotze) é mais armador e os meias pelos lados (Blas e Reus) atuam mais como atacantes, sendo mais artilheiros, no Shaktar os meias pelos lados são mais armadores e o principal artilheiro do time é o meia central (Mkhitaryan), que encosta bastante no ataque, praticamente como segundo atacante.
        A tradição e a boa fase do Borusia aliada à saída de Willian, que foi o principal jogador do Shaktar na primeira fase do torneio dão à equipe alemã um ligeiro favoritismo no duelo.
        
Desenho tático e proposta de jogo semelhantes. No Borusia, os meias pelos lados são mais atacantes, já, no Shaktar Mkhitaryan, o meia central, encosta mais no ataque.

        O Paris Saint Germain é apontado como favorito diante do Valência, mais pelo elenco estrelar (Ibrahimovic, Lucas, Lavezzi, Pastore, Thiago Silva, o técnico Carlos Ancelotti e agora David Beckham) que pela proposta de jogo em si. 
Apesar de não ter jogadores de renome, o Valência conta com um bom time e filosofia de jogo bem assimiliada. Ancelotti aposta na compactação defensiva e na qualidade de seus atletas para definir partidas.
           Para encaixar Lucas como titular no time, Ancelotti apostou no desenho tático 4-4-2, com Lavezzi e Pastore adaptados como meias pelos lados nas ações defensivas. A dupla de volantes deve contar com Thiago Motta e Matuidi, mais marcadores, deixando Veratti (que tem melhor passe) no banco. A aposta é na compactação defensiva e ligação direta, procurando a altura e força de Ibra e a velocidade de Lucas pelos lados. Na transição ofensiva, Lavezzi encosta nos atacantes, enquanto Pastore centraliza para armar. Beckham, recém-chegado ao time, deve ficar como opção no banco.
         O Valência, apesar de poucos nomes de expressão, tem um time bem montado e bem articulado. Atua no 4-2-3-1 e deve ficar mais com a bola que a equipe adversária. Os meias pelos lados (Feghouli e Guardado) centralizam para articular o time, enquanto Jonas, o meia central, encosta bastante em Soldado, praticamente como segundo atacante.
        Pelo time em si, pela proposta de jogo bem assimilada pelo elenco e pelo entrosamento, aponto Valência como favorito, mas é inegável que o PSG conta com jogadores capazes de definir o jogo em um ou dois lances.

Valência deve ficar mais com a bola. Os meias pelo lado centralizam para armar, enquanto Jonas encosta em Soldado praticamente como segundo atacante. No PSG, muita marcação e aposta na força de Ibrahimovic e na velocidade de Lucas na ligação direta.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Projeção 2013: Os 4 Grandes de São Paulo

          Assim como toda virada de ano, uma nova temporada traz algumas alterações nas equipes. Dispensas, atletas vendidos, contratações, variações táticas decorrentes disso e de novas concepções do técnico. As quatro grandes equipes de São Paulo mantiveram seus treinadores, então taticamente é provável que haja poucas mudanças. O exercício aqui é de imaginação, conhecendo a filosofia e a maneira de trabalhar de cada treinador e os atletas que ele tem/terá a disposição.

Os quatro grandes de São Paulo mantiveram seus respectivos treinadores: continuidade dos trabalhos.

O Corinthians já tem uma filosofia de jogo e inteligência tática bem assimilada pelo grupo. Isso deve ser mantido, mudando-se apenas as peças. Renato Augusto deve assumir o lugar de Douglas e atuar na linha de três meio-campistas da equipe, que atua em um 4-2-3-1 com muitas variações. O desenho padrão deve ser com Renato Augusto pela direita, Emerson Sheik centralizado e Danilo pela esquerda, podendo, como já é de praxe, haver grande troca de posições entre eles.
Pato chega para brigar por um lugar na referência com Guerreiro, sendo que cada um tem uma característica: Guerreiro é o pivô do time, segurando a bola e fazendo a parede para a chegada dos outros jogadores. Pato é um jogador de mais mobilidade, que pode cair pelos lados e trocar posições, abrindo espaços. Como aspecto semelhante o fato de que ambos são finalizadores completos (as duas pernas e cabeceio, além do senso de posicionamento). Em algumas situações de revezamento do time, Pato pode também atuar na linha de três meio-campistas, com características semelhantes à de Sheik.
Além de Pato e Renato Augusto, outro que chega para assumir uma posição de titular é o zagueiro Gil, que deve entrar no lugar de Paulo André. Em termos de assimilar a filosofia da equipe, os reforços não devem ter grandes problemas. O grande desafio de Tite será manter a motivação do elenco, levando em conta principalmente a grande concorrência do setor ofensivo (que tem ainda Jorge Henrique e Romarinho como opções).

Corinthians: 4-2-3-1 com muitas variações, opções e trocas de posições entre os atletas. Filosofia bem assimilada e boas contratações.
            No Palmeiras, muitas dispensas, poucas contratações e um indício de um meio de campo mais leve e versátil. Com o retorno de Souza e a saída de Assunção, Gilson Kleina deve retomar o 4-3-1-2 dinâmico do início do trabalho da equipe, tendo João Denoni mais plantado distribuindo passes, Wesley pela direita e Souza pela esquerda, tendo um grande revezamento de posições entre eles. Na articulação central Valdivia e na frente Luan (ou Maikon Leite) e Barcos. O meio de campo traz uma dinâmica bastante interessante, porém ainda falta um companheiro melhor qualificado para Barcos.
            Com os atletas que tem a disposição, Kleina pode também variar o desenho para o 4-2-3-1 apenas com a mudança de comportamento dos jogadores, sem alterar peças (como já fez durante o campeonato Brasileiro). Nesse caso, Wesley atua aberto pela direita, Luan aberto pela esquerda e Souza recua para formar dupla de volantes com Denoni.

Palmeiras: meio de campo leve e dinâmico, porém ainda falta um bom parceiro para Barcos na frente e suprir carências do elenco.
             No Santos, Muricy vem esboçando a equipe no 4-3-3 mesmo ainda sem ter escalado Montillo entre os titulares e sem contar com Marcos Assunção. Assunção deve ser o cabeça de área, contando com Arouca pela direita e Cícero pela esquerda. Na frente, Neymar aberto pela esquerda, Montillo entra no lugar de Miralles atuando aberto pela direita e André deve seguir como referência. Nesse desenho, Muricy deve apostar na compactação defensiva e na transição em velocidade pelos lados.
Uma variação que pode ocorrer é a aposta no 4-2-3-1 “torto”, presente nos melhores momentos da equipe santista nos últimos anos. Nesse caso, Cícero daria lugar a René Júnior, que formaria a dupla de volantes com Assunção. Montillo ficaria como articulador central, Arouca seria o meia pela direita (mais conservador) e Neymar seria o meia pela esquerda, mais agudo. Na referência, André.
            Na linha defensiva, Rafael continua no gol, Gallardo (ou Nei) deve assumir o lugar de Bruno Peres (que está de saída), Neto inicialmente assume o lugar do lesionado Edu Dracena e chega para lutar por um lugar entre os titulares, e Guilherme Santos deve ganhar oportunidades nas muitas partidas que Leo irá desfalcar a equipe. Taticamente, pouco muda.

O Santos de Muricy: compactação defensiva e transição ofensiva em velocidade pelos lados. 
A única peça importante que o São Paulo desfez foi Lucas, que será substituído por Ganso. No esboço feito por Ney Franco nos primeiros treinos do ano, o desenho tático foi mantido: 4-2-3-1, agora com Jadson pela direita e Ganso centralizado armando. Como a resposta não deve ter sido positiva, Ney Franco alterou o desenho nos treinos seguintes: 4-4-2 com o meio de campo em losango. Wellington na base, Denílson pela direita, Jadson pela esquerda e Ganso no vértice ofensivo.
A maneira de jogar, portanto, muito provavelmente será alterada. De uma equipe vertical, apostando na velocidade dos atletas pelos flancos deve se tornar uma equipe um pouco mais pragmática, valorizando um pouco mais a posse de bola, com uma natural aproximação de Denílson, Jadson e Ganso na faixa central do campo. Oswaldo segue sendo uma opção de velocidade pelos lados, tornando-se uma válvula de escape. Além de tabelar pelo meio, muito possivelmente os meias pelos lados irão formar parcerias com os laterais nos corredores, contando também com a aproximação de Ganso e Oswaldo.
Caso queira manter a maneira de jogar da equipe, Jadson ou Ganso pode sair e dar espaço para um velocista pelo lado (Douglas, Ademilson, Wallyson ou Vargas), mantendo assim o 4-2-3-1 do ano passado e o estilo mais vertical. É bem provável inclusive que Ney Franco alterne entre as duas maneiras, de acordo com situação de jogo, adversário, calendário e desfalques.
Na linha defensiva, Paulo Miranda deve manter a titularidade na lateral direita, mesmo desfalcando a equipe no primeiro jogo da pré-Libertadores por suspensão. Lucio assume naturalmente um posto na defesa. Apesar da melhor qualidade técnica, Tolói deve ser inicialmente sacado em detrimento de Rhodolfo devido ao fato de que Tolói, assim como Lucio, atua pelo lado direito da defesa. No decorrer do ano, com mais tempo para treinos, possivelmente Tolói volte ao time titular, no lugar de Rhodolfo. No gol e na esquerda, Rogério Ceni e Cortês seguem soberanos.

O dilema de Franco: muda o desenho e as características do time, tornando-o mais  cadenciado, ou mantém o estilo vertical com velocidade pelos lados? Deve variar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A seleção de 2002 e as possibilidades para 2014: um exercício de imaginação

             Felipão reassumiu a seleção. 11 anos depois da conquista do penta, novamente no meio do caminho e novamente com a “missão de resgatar o futebol brasileiro”. Já defendi aqui que o trabalho de Mano seguia um bom caminho, porém, quando realmente começava a engrenar foi interrompido por motivos puramente políticos. E agora, quais serão as mudanças no trabalho realizado por Felipão? O que está sendo feito aqui é um exercício puramente de imaginação levando-se em conta principalmente a seleção que conquistou o penta 11 anos atrás. 
Novo técnico da Seleção: como será seu trabalho?
             Com o intuito de dar maior liberdade para os laterais, excelentes no apoio, Felipão escalou um volante/zagueiro (Edmilson) cujo comportamento dependia do comportamento adversário: se jogavam com um atacante, Edmilson ficava ao lado de Gilberto Silva; se jogavam com dois atacantes, Edmilson compunha a linha defensiva, deixando Lúcio sempre na sobra. Além de Edmilson, Gilberto Silva atuava como primeiro volante, bem recuado, muito raramente se projetando ao ataque com a clara função de proteger a defesa.
           Fazendo a ligação entre defesa e ataque, além dos laterais, tínhamos Kleberson, na época em excelente forma física. Ele atuava ora próximo de Gilberto Silva ora na linha dos meias.

Kleberson fazendo a ligação entre defesa e ataque: excelente preparo físico.
             Na frente tínhamos Ronaldinho e Rivaldo se alternando na armação e Ronaldo na referência, sempre contando com os apoios de Kleberson e dos laterais. As jogadas normalmente eram verticais, com muitos passes em profundidade e ultrapassagens. Respeitando as características do centroavante (Ronaldo), não havia chuveirinhos, como costuma ocorrer em equipes comandadas pelo Felipão.

Um resumo das ações ofensivas: Ronaldinho e Rivaldo se alternando na armação, Ronaldo na referência  e apoio constante dos laterais (no caso, Cafu).
              Atualmente nossos laterais novamente estão entre os melhores do mundo, e novamente tendo como grande triunfo a qualidade no apoio: Daniel Alves e Marcelo. Com isso, é capaz que Felipão repita a estratégia de escalar volantes que façam a cobertura e dêem liberdade aos laterais. David Luiz é um zagueiro de grande qualidade técnica e costume de subir ao ataque com a bola dominada, além de ter sido recentemente testado (e ido bem) no Chelsea na posição de volante. Pode realizar a função de Edmilson na copa de 2002. Na cabeça de área, Felipão deve escalar um “cão de guarda”, um volante puramente marcador que raramente ultrapassa a linha do meio. Dentre as opções temos: Felipe Melo, Sandro, Ralf, Lucas Leiva...
              Na função de realizar a transição defesa ataque temos hoje dois jogadores com características semelhantes a de Kleberson: Paulinho e Ramires devem brigar por uma vaga. Lembrando que Juninho Paulista, uma meia mais ofensivo, iniciou a copa nessa função, Oscar pode estar correndo por fora.
            Felipão já manifestou que deve contar com a experiência de alguns jogadores, logo, Ronaldinho é fortíssimo candidato a retomar o posto como articulador principal (ocupado por Rivaldo em 2002), tendo Neymar ao seu lado, revezando-se entre armação e ataque. Na frente não temos mais Ronaldo Fenômeno, mas Felipão não abre mão de uma referência, um centroavante finalizador. Deve entrar Fred, artilheiro do campeonato brasileiro (Luis Fabiano e Leandro Damião correm por fora).
            No gol não temos hoje nenhuma unanimidade. Se optar pela experiência, pode contar com Julio César, em franca decadência. Pela fase atual os candidatos mais fortes são Diego Cavallieri (melhor goleiro do campeonato brasileiro) e Cássio (campeão da Libertadores e do Mundial de Clubes com defesas decisivas, porém ainda pouco experiente). 

Disposição tática da seleção de 2002.

Possíveis escolhas de Felipão para 2014, se mantiver desenho e conceitos aplicados 11 anos atrás.
          Felipão conta com boa qualidade individual, tanto no sistema defensivo quanto no ofensivo. Jogadores criativos que podem dar uma boa resposta. Porém, um problema recorrente em seus trabalhos merece atenção: a falta de compactação do time, principalmente nas ações ofensivas. A defesa fica muito recuada e os laterais não fecham pelo meio. Se David Luiz estiver compondo a última linha, o outro volante ficará praticamente sozinho cuidando de toda a intermediária defensiva. Enfrentar equipes que gostam de circular a bola no campo ofensivo pode gerar grandes problemas no sistema defensivo, parecido com o que o Santos sofreu contra o Barcelona no Mundial de 2011. Espanha e Alemanha são potenciais rivais de alto risco para o Brasil.

Falta de compactação: zagueiros muito recuados e laterais não fecham pelo meio. Reparem no espaço livre na intermediária defensiva, com Kleberson ainda retornando e Roberto Carlos nem aparece na foto. Um risco contra seleções que gostam de rodar a bola.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Categorias de Base: Formar ou Ganhar?

“Quero que olhem os jogadores com os olhos do São Paulo, dentro do Padrão São Paulo. Recebo mil telefonemas dizendo “tenho um volante sensacional, com 1,94m”. Pô, estou trabalhando com futebol, não com basquete, e a primeira coisa que dizem é que o cara é forte e alto à beça. E daí? O meu interesse é: tem talento? Para observar o jogador, preciso saber: Tem talento? Tem leitura de jogo? Mobilidade? É um cara que sabe jogar no coletivo ou vai dar trabalho porque é muito individual?”

Esse é um trecho de uma entrevista do René Simões para a Gazeta Esportiva quando assumiu as categorias de base do São Paulo, e expressava uma preocupação sobre o que acontece em quase todos os clubes na hora de formar e selecionar jogadores.


René Simões, ex-diretor de base do São Paulo: preocupação extremamente válida.
O processo de crescimento de um indivíduo não segue uma ordem cronologia, mas sim biológica. A maturação de cada um acontece em um momento. Por isso vemos garoto de 13 anos com barba, pelo nas axilas e 1,70m e garoto de 13 anos ainda com cara de criança e 1,50m. Essa maturação precoce ou tardia influencia no desempenho de cada garoto no esporte, já que as categorias são divididas por idade, assim, o primeiro exemplo leva ampla vantagem sobre o segundo, principalmente do ponto de vista físico.
A cobrança por vitórias e títulos faz com que as categorias de base dos clubes tenham preferência pelos atletas mais altos e fortes (maturação precoce) no momento de selecionar jogadores. O resultado em curto prazo é positivo.
A questão principal aqui é que com o passar dos anos, esses atletas vão perdendo essa vantagem, já que, mais cedo ou mais tarde, todos chegam à maturidade biológica, o que iguala a condição física dos jogadores. Não raro vemos jogadores que se destacam nas categorias de base justamente pela força física e não obtém o mesmo desempenho no profissional.
Por isso é fundamental trabalhar com capacidades não só físicas, como também táticas, cognitivas, técnicas e psicológicas desde a escolha do atleta até sua formação dentro do clube.
Temos como exemplos opostos o Palmeiras, que apesar de conquistar dezenas de títulos nas categorias de base tem uma grande dificuldade em formar jogadores que sejam aproveitados na equipe de cima, e a geração do Barcelona, que cresceu dentro de uma filosofia de trabalho que aborda todas as gamas acima citadas e conquistaram coisas grandiosas apesar da baixa estatura média do time.

Pequenos, porém talentosos: qualidade técnica e inteligência de jogo superaram forças físicas.

Não devemos aqui subestimar o valor de um título. Ele é fundamental e devemos sempre buscá-lo. O ponto aqui é discutir a forma como isso pode ser feito. Devemos lembrar que nas categorias de base estamos formando o jogador. Por vezes é válido percorrer um caminho um pouco mais longo, desde que isso signifique um trabalho melhor feito em cima de cada atleta no sentido de prepará-lo para o futebol profissional e para a vida adulta de forma geral.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A seleção de 70 e as semelhanças com a atual

        A seleção de 1970 é exaltada por muitos como a melhor seleção que o Brasil já teve. Realmente, contava com nomes como Pelé, Tostão, Rivellino, Gerson e outros, encaixados e bem treinados. O interessante é que essa é daquelas “verdades absolutas” repetidas por gente mais nova que nunca viu mais que dois ou três lances daquela Copa e de gente mais velha que tem apenas esses alguns lances na memória. Estimulado por um post do André Rocha (colunista da ESPN), fui atrás de analisar a forma de jogar dessa seleção e constatei: há muitas semelhanças com o que Mano Menezes tem tentado aplicar na seleção atual.
        Aquela seleção contava com três excelentes pontas-de-lança, e para encaixá-los Zagallo fez algumas adaptações: Rivellino foi jogar de ponta esquerda e Tostão ficou no que vou chamar de referência móvel.
        Este era apenas o desenho tático inicial, já que a grande movimentação e troca de posições entre os atletas tornava a equipe extremamente dinâmica e imprevisível. Tostão muitas vezes abria pela esquerda ou recuava para armar a jogada, abrindo espaço para as infiltrações de Pelé, Jairzinho e às vezes de Rivellino e até Carlos Alberto Torres e Clodoaldo. Aliada à intensa movimentação e infiltrações, uma arma muito efetiva eram os lançamentos de Gerson (arma que não é utilizada na seleção atual, cuja dupla de volantes é composta por carregadores de bola, que têm o costume de aparecer no ataque, mas não de realizar lançamentos). 

Na formação inicial: Tostão na referência fazendo o pivô para Rivellino na esquerda.

Tostão abrindo para a esquerda, gerando espaço para a infiltração do volante Clodoaldo.

Tostão recuando, abrindo espaço para a infiltração de Jairzinho.

Jairzinho (7), o ponta-direita, por vezes abria pela esquerda, abrindo um buraco no lado oposto. Detalhe: este lance é contra o Uruguai, mostrando como a movimentação não foi exclusiva e por acaso no gol do Carlos Alberto Torres contra a Itália. 

Arma mortal, que a seleção atual não conta: os lançamentos de Gerson.

Jairzinho se projetava no meio da área como autêntico centroavante. Não é a toa que ele foi o artilheiro da Copa, tendo feito gols em todos os jogos.
        Há pouco tempo realizei um post aqui no blog analisando as variações táticas experimentadas pelo Mano. Em todas elas, ele contava com um autêntico centroavante. Nos últimos amistosos, com a entrada de Kaka no lugar de Leandro Damião, Mano mudou a forma de jogar da equipe, deixando Hulk, Oscar e Kaka como trio de meias atrás de Neymar, que fazia a referência móvel.
        De maneira muito semelhante à de Tostão em 70, Neymar é a referência, mas não fica centralizado. Abre pelos lados (principalmente pela esquerda) ou recua, abrindo espaços para a ultrapassagem dos meias e dos volantes.
        A grande diferença, como dito acima, é a característica da dupla de volantes. Se Clodoaldo de certa forma se assemelha aos dois atuais, Gerson tinha uma forma de jogar bem diferente, cadenciando mais o jogo e realizando passes e lançamentos primorosos. 

Momento de marcação da seleção brasileira atual: praticamente um 4-2-4.

Neymar recuando para armar a jogada e abrir espaço para a infiltração dos meias.

Neymar abrindo pela esquerda para armar a jogada, abrindo espaço para a infiltração dos meias. Compare essas duas últimas fotos com a movimentação do Tostão. Mera coincidência?
        Não sei dizer se Mano Menezes estudou a seleção de 1970 e realmente se inspirou nela, mas as semelhanças estão aí. Talvez o caminho seja um pouco mais longo: Mano já afirmou se inspirar em Pep Guardiola, que disse ter aprendido muito com as seleções brasileiras de 1970 e dos anos 80.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Pela Mobilidade e Inteligência Tática!

             Quem acompanha o blog já deve ter percebido um padrão: a defesa da mobilidade e leitura de jogo por parte dos atletas, com o intuito de deixar a equipe mais imprevisível, qualificada e difícil de ser marcada. Nas diferentes postagens defendi que os volantes devem saber sair jogando, há possibilidade de jogar sem um centroavante fixo, com mais jogadores de qualidade técnica em detrimento dos “obedientes taticamente”.
            É mais cômodo e fácil para os treinadores fechar um posicionamento “quadrado” dos atletas. Eles se dispõem em campo da maneira que o treinador deseja, guardam a posição e executam funções pré-determinadas. Praticamente um tabuleiro de xadrez. O problema se dá no fato de que o futebol é um esporte dinâmico, com um adversário que estuda sua equipe e planeja estratégias para anular suas jogadas.
            Na minha concepção, esse é o principal motivo das quedas de rendimento na segunda metade do campeonato das equipes de Cuca e alguns outros treinadores. Ele monta um desenho legal, bem assimilado pelos atletas e dá resultado até que as outras equipes consigam entender e assim combater a maneira de jogar do time. No caso deste ano: saída de bola pelas laterais, Ronaldinho centralizado armando e a velocidade de Bernard pela esquerda (cortando para o meio) e Danilinho pela direita, com volantes mais combativos que pouco acrescentam ofensivamente. Alternativas poderiam ser trabalhadas, como um passe mais qualificado vindo de trás, aproximações e trocas de posição entre Ronaldinho, Bernard e Danilinho, mudanças de desenho tático durante a partida com um meia se aproximando mais de Jô ou vindo buscar o jogo...

Atlético-MG: obediência deixa time previsível (contra o Flamengo com Escudero no lugar de Bernard, suspenso, mas realizando exatamente a mesma função).

            Por outro lado, o maior feito de Gilson Kleina em pouquíssimo tempo de trabalho até o momento foi justamente a maior liberdade dada aos atletas em campo em relação ao Felipão, e os atletas têm se sentido bastante à vontade com essa liberdade. O trio de volantes troca posições constantemente, Valdivia ora compõe o meio de campo próximo aos volantes, ora abre do lado oposto ao Maikon Leite (que não tem lado definido, caindo ora pela direita ora pela esquerda) formando um 4-3-3... alternativas e dinâmica que se moldam de acordo com situação de jogo, equipe adversária, necessidades do momento, sempre através da leitura de jogo dos próprios atletas (principalmente Henrique e Marcos Assunção),  coordenados pelo treinador.


Formação inicial do Palmeiras: Henrique (amarelo) centralizado, Marcos Assunção (vermelho) pela esquerda e Marcio Araujo (azul) pela direita, com Valdivia com liberdade.

Quando Henrique (amarelo) avança, Marcos Assunção (vermelho) volta para ocupar  o espaço deixado por Henrique.

Em algum momento da partida: Marcio Araujo (azul) pela esquerda e Marcos Assunção (vermelho) centralizado. Troca constante de posições.

            Como dito acima, é fundamental que os atletas consigam perceber e entender as situações de jogo e buscar soluções por conta própria, e isso vale para todos os setores (defesa, meio e ataque). Ao técnico cabe o papel de coordenar isso, orientando, mas dando liberdade para seus atletas. Nada de ficar cantando cada lance, com se manuseasse robôs. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

É Possível Abdicar dos “Cães de Guarda”?

              Cada vez mais as grandes equipes e seleções, principalmente da Europa, têm buscado colocar em campo mais atletas com capacidade técnica de participar efetivamente de ações ofensivas da equipe. E isso implica, entre outros, ter volantes que saibam jogar com a bola nos pés.
            Aqui nesse espaço já foram destacadas algumas situações nesse sentido: o comportamento de Pirlo no Milan campeão da UCL 2006/07, no Juventus atual e na Itália na última Eurocopa; o comportamento dos volantes da seleção alemã na última Eurocopa (situação semelhante é observada no Real Madrid, porém de uma forma um pouco mais conservadora); os aspectos teóricos dos conceitos defensivos, em que na marcação por zona há uma divisão equilibrada de espaços ocupados e funções.
O comportamento de Pirlo nas equipes em que joga e da seleção alemã, com uma dupla de volantes com iguais funções defensivas e ofensivas. Dois dos exemplos já citados aqui no blog sobre a ausência de um "cão de guarda".
               Dentre as grandes equipes européias, quase não vejo casos da utilização no time considerado titular de um volante que tem como funções únicas a marcação e a cobertura defensiva. Algumas equipes contam com uma dupla de volantes que têm iguais responsabilidades defensivas e ofensivas (como por exemplo o Real Madrid e a seleção alemã, como destacado acima), e outras contam com um primeiro volante com qualidade no passe e certa liberdade para chegar à frente (como por exemplo Sergio Busquets no Barcelona e na seleção espanhola).
            Aqui no Brasil já é mais comum a escalação de um primeiro volante que tem basicamente apenas funções defensivas, e isso se deve principalmente ao comportamento dos laterais: enquanto na Europa os laterais ocupam quase o tempo inteiro a linha de defesa, raramente subindo para o campo ofensivo, no Brasil temos tradicionalmente laterais fortes no apoio, o que naturalmente deixa mais espaços no setor defensivo. Para compensar esse espaço deixado por laterais, os treinadores brasileiros optam por escalar um volante exclusivamente marcador, que tem como função principal realizar a cobertura desses laterais.
            Apesar dessa tradição, porém, cada vez mais equipes brasileiras também contam com volantes capacitados nas ações ofensivas. Das quatro equipes paulistas, apenas o Santos conta hoje com um volante mais marcador (Adriano), mas vale lembrar que o Santos campeão da Libertadores contou com Henrique na equipe titular. Com o excessivo número de lesões e algumas mudanças na equipe, não dá para saber se, com o time completo, Muricy ainda manteria Henrique como primeiro volante. Apesar de ser zagueiro, Henrique tem boa atuação no aspecto ofensivo no Palmeiras. Ralf, no Corinthians e Denílson, no São Paulo, têm bom passe e participam ativamente das ações ofensivas de suas equipes.
            Das três equipes melhores colocadas no campeonato brasileiro atualmente, duas usam um primeiro volante exclusivamente marcador (Edinho no Fluminense e Pierre no Atlético-MG), mas isso se deve principalmente, como dito acima à grande vocação ofensiva de seus laterais. Já o Grêmio conta com um primeiro volante com grandes qualidades tanto defensivas quanto ofensivas, o jovem Fernando, que joga como veterano.

Fernando, Denílson, Henrique e Ralf: exemplos de primeiros volantes que participam com qualidade das ações ofensivas de suas equipes.
            A opção por escalar um volante exclusivamente para funções defensivas é simplista: é mais fácil colocar alguém que faça essa cobertura que cobrar dos atletas (tantos laterais quanto volantes) consciência tática, leitura e percepção de ocupação de espaços (quando subir, quando voltar, aonde ir). As equipes brasileiras poderiam aproveitar tanto o poderio ofensivo de seus laterais quanto a qualidade técnica de seus volantes, a fim de ter em campo um maior número de jogadores tecnicamente qualificados. Tendo inserido neles a leitura de jogo e a percepção de que a participação ativa de todos tanto do ponto de vista ofensivo quanto do defensivo torna-se possível colocar os melhores em campo.